Título original: "Texas Chainsaw Massacre"
Gênero/Subgênero: terror/slasher
Dirigido por: David Blue Garcia
Elenco parcial: Sarah Yarkin, Elsie Fisher, Mark Burnham, Alice Krige, Moe Dunford, William Hope, Jessica Allain, Jacob Latimore, Nell Hudson, Sam Douglas e Olwen Fouéré
País de origem: Estados Unidos/Bulgária
Duração aproximada: 83 minutos
Produtora/Distribuidora: Legendary Entertainment/Bad Hombre/Exurbia Films
"In 1974, The World Witnessed One of the Most Bizarre Crimes in the Annals of American History. In 2022, The Face of Madness Returns."
"The Face of Madness Returns."
Em 1974, um filme redefiniu o terror e pavimentou o caminho para o subgênero slasher. Claro, falo de "O Massacre da Serra Elétrica", dirigido pelo saudoso cineasta texano Tobe Hooper (1943—2017), que parcialmente inspirado pelos macabros crimes do notório serial killer estadunidense Ed Gein (1906—1984), deu origem a uma das obras mais angustiantes, depravadas e viscerais já concebidas, uma legítima masterpiece não apenas em seu estilo, como na história da sétima arte em si.
Apesar de tudo, acredito que muitos até hoje desconhecem que este clássico imortal não prima por entregar homicídios em massa estupidamente exagerados e gore em profusão, tal como na maioria dos filmes da saga, que trilharam o rumo do exploitation — e até mesmo torture porn, em certos exemplares —, mas sim, pela sua crueza e ambientação intimista, além de seu tom documental, elementos que proporcionam com que a obra soe quase como a um snuff movie, um espetáculo completamente perverso e proibido.
Tamanha façanha inspira incontáveis cineastas e artistas até hoje e claro, um feito como este certamente terminou por suceder em uma franquia cinematográfica longeva, que atingiu a sua nona entrada com "O Massacre da Serra Elétrica: O Retorno de Leatherface", produção que chegou bem recentemente ao catálogo de streaming da Netflix, em 18 de fevereiro.
A fita, que possui a mesma premissa de trabalhos como "Halloween" (2018), ignora todos os episódios anteriores, incluindo sequências, reboots e prequels e serve de continuação direta ao longa setentista. Apesar das aparentes "boas intenções", a sequência mal foi lançada e já se tornou mais uma entrega da saga do maníaco da máscara de couro humano à dividir completamente as opiniões entre o seu público.
De cara, adianto que sou um grande entusiasta não apenas do longa-metragem de Hooper, que é possivelmente meu filme de terror predileto de todos os tempos, como também aprecio alguns dos episódios da saga e abaixo, vou destrinchar — literalmente e na medida do (im)possível — esta nova sequência, porém antes disso, farei questão de trazer um prólogo, onde vou discorrer sobre o histórico da cinessérie, o intuito de cada entrada, além de minhas impressões gerais.
Tentarei não me estender tanto no que diz respeito aos longas anteriores, entretanto adianto que não deixará de ser um panorama minucioso e consequentemente longo, pois acredito que muitos se sentem completamente perdidos ao assistir a estes filmes e não os julgo, visto que a cronologia e linha do tempo da saga "O Massacre da Serra Elétrica" é, ao lado de outras, como "Halloween", uma das mais problemáticas e desorganizadas possíveis.
Uma vez explanado tudo isto, peguem suas motosserras, aventais de açougueiro, martelos de abatedouro, máscaras confeccionadas em pele humana e outros apetrechos bizarros e juntem-se a mim nesta leitura tão fanfarrônica quanto psicótica e canibalesca.
Prólogo do Massacre
Ainda que o meu contato inicial com a franquia tenha sido com o terceiro e segundo filme, respectivamente — e até hoje, tenho um carinho imenso por estas sequências —, posso assegurar que minha vida jamais foi a mesma após assistir ao emblemático e indispensável trabalho de 1974. Foi uma experiência verdadeiramente única e inimitável e, honestamente, considero que jamais alguém poderia repetir o mesmo efeito desta joia.
Não é à toa que sua sequência, "O Massacre da Serra Elétrica 2" (1986), lançada somente após mais de uma década, aposta numa abordagem completamente oposta, funcionando muito mais como uma releitura de humor negro, histericamente lúdica e banhada de sangue e entranhas à exaustão, cortesia do mago dos efeitos especiais Tom Savini ("Sexta-Feira 13", "Creepshow: Arrepio do Medo", "O Despertar dos Mortos") e ainda contando com o inesquecível Dennis Hopper (1936—2010) em seu elenco. Novamente comandado por Tobe Hooper, o longa prima por não visar repetir o mesmo experimento de seu antecessor e, somente de ter esta autoconsciência tão honesta, já o torna uma sequência digna e que merece respeito e atenção.
O terceiro longa, "Leatherface: O Massacre da Serra Elétrica III (1990) trouxe uma abordagem novamente diferente, tentando resgatar — ainda que modestamente — o tom mais sombrio e sarcástico do longa de estreia, combinando com elementos mais galhofas do antecessor, embalados por uma trilha sonora completamente heavy metal. Além disso, apesar de possuir o algarismo "III", seu prelúdio aponta que é, claramente, uma nova continuação estrita do longa de 1974. Naquela época, os conceitos de retcon, remake, reboot e afins eram completamente desconhecidos, logo os realizadores certamente optaram por manter a numeração para facilitar a promoção da fita. Ah e não podemos deixar de mencionar a presença de um jovem Viggo Mortensen (trilogia "O Senhor dos Anéis") em início de carreira.
Considero o terceiro filme um pouco subestimado, dentro de sua proposta novamente sutil de ser apenas um slasher decente e agradável, o que de fato ele é, porém infelizmente a produção foi um fracasso comercial gigantesco, levando a adivinhem o que? Outra sequência inédita para o primeiro longa, "O Massacre da Serra Elétrica: O Retorno" (1995). E eis que a mania dos reboots se torna uma ameaça recorrente por aqui.
O resultado? Um fiasco de proporções absolutamente desastrosas em cada sentido da palavra, além de se tornar uma mancha negra no currículo dos até então estreantes Renée Zellweger e Mathew McConaughey. E vocês pensando que esta nova versão de Leatherface de 2022 era um dos poucos reboots/retcons da franquia? "Sabem de nada, inocentes!".
Costumo dizer que este quarto filme, é o equivalente a "Batman & Robin" (1997) desta saga. É impressionante o fundo do poço que esta série atingiu com tão poucos longas lançados e, tal como ocorreu com o Cavaleiro das Trevas de Gotham City, foi outra franquia que precisou ficar na geladeira — se bobear, aquele mesmo freezer onde a vítima Pam (Teri McMinn), do filme original foi parar — por quase 10 anos, retornando com força total com o aclamado reboot intitulado simplesmente de "O Massacre da Serra Elétrica" (2003).
Esta empreitada se tornou o precursor dos chamados "remakes sombrios" dos anos 2000 e é, disparado, o melhor exemplar de sua safra. Ganhou uma prequel 3 anos mais tarde, "O Massacre da Serra Elétrica: O Início" (2006) que, embora seja inferior, ainda mantém a mesma linha cronológica, personagens e garante a diversão com seu show de horror sanguinolento, típicos do torture porn. Todavia, novamente tiveram a "brilhante" ideia de dar continuidade ao longa setentista com "O Massacre da Serra Elétrica 3D: A Lenda Continua" (2013).
Pasmem, os caras não desistem mesmo! Pra variar, o produto final é outra sequência absurdamente chinfrim e recheada de furos no roteiro que beiram o surreal. Surpreendentemente, faturou o suficiente para receber outra prequel, "Massacre no Texas" (2017), agora para — É sério, é impossível de acreditar! — filme de 1974. Se deu bom desta vez? É claro que não. Diga-se de passagem, é de suma importância destacar que esta última empreitada foi a primeira vez que uma produção da série não foi exibida nos cinemas, sendo disponibilizada diretamente para aluguel, o que já demonstra o quão desgastada essa franquia está.
O Retorno de Leatherface
E finalmente, sem mais delongas, mergulharemos na pauta-mór deste texto. Depois do merecidíssimo fracasso da segunda prequel, não demorou nada para que outro estúdio adquirisse os direitos da franquia. A bola — ou melhor, a serra — foi passada adiante para a Legendary Pictures, que tinha um projeto realmente brilhante, visionário e jamais imaginado na mente de qualquer roteirista de Hollywood. O conceito básico? Que tal uma NOVA — Eu falo SERÍSSIMO! — continuação do bendito filme de 1974? Como diria C.J., da franquia de games "G.T.A.", "Ah shit, here we go again!".
O nono "O Massacre da Serra Elétrica" mal foi anunciado e os sinais de que o projeto poderia novamente fracassar miseravelmente eram muito claros. Em sua primeira semana de rodagem, a dupla de diretores inicialmente contratados, Andy e Ryan Tohill, foi demitida por "divergências criativas". Para completar o projeto, o cinematógrafo texano David Blue Garcia ("Tejano") assumiu a linha de frente às pressas e, após testes de exibições, o feedback foi extremamente negativo, fazendo com que a Legendary Pictures vendesse os direitos da produção para a plataforma de streaming Netflix. Aparentemente, as críticas foram basicamente em decorrência aos furos de roteiro, decisões questionáveis tomadas no decorrer da fita, além do direcionamento dado ao antagonista.
Já dizia aquele meme do Pelé: "Já viu, né?". E mais uma vez, outro filme da saga que não teve lançamento na tela grande, comprovando que o status da saga de Leatherface está cada vez mais precário e que, definitivamente, está na hora de "largar o osso", ao menos por um bom tempo. O mais controverso é que, embora todos os sinais indicassem um fracasso de proporções tão hediondas quanto os crimes cometidos pelo vilão brutamontes, o produtor uruguaio Fede Alvarez ("A Morte do Demônio" 2013, "O Homem nas Trevas"), agora o porta-voz da série, declarou aos quatro ventos que o público poderia ficar despreocupado, que na realidade o resultado final é sim muito bom e repleto de gore e insanidades mil. Olha, o marinheiro de primeira viagem que vê, pensa que "O Massacre da Serra Elétrica" se trata exclusivamente disso, não é mesmo?
A "trama" se passa 50 anos após o longa original e nos apresenta um grupo de jovens — Alguém surpreso? — influencers e idealistas, que se dirigem a cidade fantasma de Harlow, no interior do Texas (EUA), no intuito de "revitalizar" o território. Sem nenhuma cerimônia, acabam se deparando com Leatherface (Mark Burnham), o desaparecido maníaco responsável pelo massacre ocorrido em 1973.
Tal como fiz em minha análise sobre o recente "Halloween Kills: O Terror Continua", acredito que seja importante avaliar esta entrada inédita da saga "Massacre" de 2 formas essenciais: como projeto/sequência legado de uma das obras-primas do cinema e claro, como entretenimento em si. De imediato, sendo muito benevolente/generoso, o prelúdio é realmente muito bem conduzido, tanto por estabelecer brevemente os fatos do longa original — ainda que seja completamente bisonho alguém os desconhecer à esta altura, depois de tantos anos e longas — como pela sua ambientação e cinematografia, que são realmente belíssimas. A propósito, creio que este seja um dos exemplares mais visualmente belos da franquia.
O cenário da tal Harlow, em contrapartida, não é dos mais inventivos, se assemelhando a algo na mesma linha do teen slasher/reboot "A Casa de Cera" (2005), mas sem alcançar o mesmo status de prestígio de algumas ideias que, naquela fita, são consideravelmente mais elaboradas. E claro, exceto o lar onde Leatherface reside — e adianto desde já que não é a mesmo da versão de 1974 — e um ônibus vintage, praticamente nada da cidade é devidamente utilizado, o que também é frustrante.
Mais uma vez, foi uma outra oportunidade desperdiçada facilmente, pois poderia ampliar o clima de tensão na incansável perseguição do vilão para com suas vítimas. Apesar de tudo, o que de fato não me convenceu nesta tal cidade-fantasma é sua total falta de semelhança com o território árido e de aspecto mais distante e misterioso do filme que visa dar continuidade.
De um modo ou de outro, o direcionamento essencialmente estilizado da película chamará a atenção. A cinematografia, os truques de maquiagem, efeitos, gore e direção de arte são, precisamente, os grandes trunfos desta inédita produção. Pontos para os realizadores, neste quesito, realmente acertaram na mosca. Ademais, jamais nos esqueçamos que Blue Garcia é um diretor de fotografia, logo era evidente desde o início que seu trabalho estava fadado desde o princípio a render uma película fundamentalmente artística.
Analisando sob outra perspectiva, tal como vi em um dos reviews que conferi sobre a obra após assisti-la, um filme não possui a mesma missão de uma pintura ou fotografia. Ser dotado de uma uma estética visualmente engenhosa e caprichada é sim um grande mérito e deve ser cortejado como tal, entretanto de nada adianta se apoiar em uma estrutura técnica e fracassar miseravelmente ao entregar um resquício de roteiro, com direito a tantas crateras — nem dá pra chamar de buracos — em seus desdobramentos, além de sequer trabalhar, o mínimo que seja, na construção de seus personagens.
Muitos irão alegar que já é um padrão esperado o fato dos personagens desse tipo de trama serem os mais estereotipados e sem sal, seja nesta franquia ou em outros do subgênero e isto é verídico, contudo existem sim exemplares muito superiores — inclusive nesta saga —, de protagonistas com o mínimo de caracterização, personalidade, background e que, vejam bem, façam com o que o espectador se importe com suas personas. Adianto que aqui, definitivamente, não é o que encontramos.
Além do fato da "trama" ser muito ridícula e inverossímil e, em momento algum, dar liga a algo, inexiste até mesmo o desenvolvimento de algum arco. Inclusive, há menções de um massacre ocorrido em uma escola e como isto afetou tragicamente a vida da jovem Lila (Elsie Fisher), bem como sua irmã Melody (Sarah Yarkin), também envolvida neste terrível episódio, algo que poderia causar uma aproximação instantânea para quem assiste a obra, se fosse desenvolvida corretamente, mas não. Outra oportunidade de render um background no mínimo interessante e que foi desperdiçada tão facilmente. Acredito que, talvez, a versão integral da obra deveria incluir mais aspectos sobre isso, é bem capaz.
Falando sobre os personagens, com exceção de Leatherface, sua "mãe" adotiva, Srª MC (Alice Krige), além de mais alguns outros poucos, a maioria é caracterizada como os estereótipos mais burros e genéricos em uma fita do gênero, batendo de frente com os do horroroso e no pior sentido da palavra "O Massacre da Serra Elétrica: O Retorno". Impressionantemente, pouquíssimos personagens nessa bagaça realmente me geraram empatia, dentro das limitações surrealmente rasas apresentadas. E obviamente, muitas — senão todas — tomadas de decisões beiram as mais estúpidas e irritantes, atingindo o clímax. O clímax... de que apenas torcemos pra todos morrerem das formas mais criativas e truculentas.
Como se não bastasse tudo isso, ainda temos uma tentativa frustrada e que não convence em muito algum de explorar comentários sociais. Buscando surfar na mesma onda das produções de Jordan Peele e cia., os subtextos a respeito de gentrificação, anti-armamentismo, redes sociais e cultura do cancelamento são trazidos à tona, porém nenhum deles é explorado com propriedade. Ao invés disso, temos uma enxurrada de linhas de diálogo que são tão vazias quanto exageradas/"over the top".
Por exemplo, o comentário social sobre gentrificação, conforme temia, é muito raso e rende diálogos nada inspirados e assustadoramente expositivos. Pra se ter uma ideia, logo na cena inicial, Herb, um funcionário de um estabelecimento (Sam Douglas) resmunga que os protagonistas do filme são "gentrificadores" e, dadas as circunstâncias da trama, sequer faz sentido um personagem como aquele conhecer o significado deste termo e tampouco utilizá-lo.
Outro argumento que considerei pífio e novamente, vindo deste personagem (Herb), é quando Lila questiona, também logo no início, como nunca encontraram o assassino texano. Descaradamente, o sujeito tem a pachorra de alegar que "porque usava uma máscara", o que dificultou sua identificação. Tudo bem, entendemos a circunstância da máscara, mas o porte físico tão singular do homicida já funcionaria como um critério imprescindível para descobrir sua verdadeira identidade.
Nos primeiros 20 minutos, as próprias conveniências do "roteiro" viabilizam o encontro dos jovens com o nosso antagonista, demonstrando que um bando de moleques da cidade conseguiram obter êxito em algo que a Polícia jamais conseguiu e o pior, da forma mais aleatória e improvável possível. Comparo o efeito de se tentar esconder Leatherface numa cidadezinha como essa com o mesmo experimento de se tentar camuflar um mamute ou ser gigantesco em uma área que ofereça zero oportunidades para isso. Ah, esses rombos convenientes da "trama".
Um dos trechos que mais me irritou foi quando um dos personagens, Dante (Jacob Latimore) avista uma bandeira dos Confederados — mais uma vez, outra tentativa decepcionante de flertar com crítica social —, um dos segmentos mais vergonhosos e sem qualquer argumento plausível e de quebra, ainda faz com que, sem o mínimo de esforço, torçamos para Leatherface logo nos primeiros minutos. "Parabéns aos envolvidos"! Ao invés de criarem um elo, o mínimo que fosse, entre os protagonistas e o público, simplesmente não conseguimos desenvolver nenhuma empatia pelos mesmos, muitíssimo pelo contrário.
Este é, disparado, o filme mais fácil para se torcer pelo vilão. Sério, é simplesmente "goreoso" — SIM, tomem este trocadilho fanfarronicamente infame para "glorioso", porque SIM! — ver Leatherface, agora tão indestrutível e implacável quanto um Michael Myers ou Jason Voorhees, massacrando impiedosamente um sem-número de zé ruelas. Detalhe: este filme é, como bem enfatizado, uma nova sequência direta do filme setentista. Então, sim! Leatherface deveria ter aqui, no mínimo, uns 60 e tantos anos.
E quer saber? No fundo, eu tinha convicção desde o início que jamais deixariam o cara envelhecer como um ser humano comum. De fato, jamais esperei em qualquer hipótese que fosse testemunhar uma versão sobrenatural de seu personagem, diferente das crias na qual deu origem — ao menos no universo cinematográfico, porém como em momento algum levei esta produção mequetrefe à sério, engoli numa boa, como se estivesse assistindo algo completamente alcoolizado e/ou entorpecido, de algum modo.
"Mas Fanfarrão, e o massacre em si?" É tudo isso mesmo que estão dizendo?". SIM, é realmente o filme mais escrachado e indecente em termos de violência explícita de toda franquia. Alguns momentos de maior destaque da obra são a tão elogiada cena da marretada que vem sendo comentada por todos através das redes e mídias sociais — definitivamente a martelada mais brutal que já vimos dentro de um capítulo da série —, além de uma cena de ataque violentíssima, na qual uma porta fica abrindo e se fechando, resultando numa cena fenomenalmente bem concebida.
Não nos esqueçamos do envolvimento de Blue Garcia na confecção e identidade artística e visual aqui presente, certo? Por outro lado, a banalização da violência pode soar como uma faca — ops, digo... serra?! — de duas lâminas afiadíssimas, com uma cena mais grotesca que a outra sendo exibida à cada 10 minutos ou menos, o que pode simplesmente cansar alguns. O bom também de ser tão direto é não permitir brechas para nudez e sexo gratuitos e totalmente fora de contexto, elementos tão comuns dentro do subgênero slasher. Aliás, se existe um ponto muito positivo na maioria dos filmes da franquia é que estes elementos são bem mais escassos se compararmos com os "Halloween" e "Sexta-Feira 13" da vida.
Por sua vez, aquele que, possivelmente, é o momento de maior destaque é a cena que ocorre dentro de um ônibus antigo, que culmina no mais puro massacre com a motosserra, preenchido não apenas pelo gore e membros sendo decepados impiedosamente por Leatherface, como também pela seu harmonioso aspecto visual. Para o bem ou para o mal, agradará em cheio a muitos fãs. Inclusive, é até irônico como, finalmente, após tantas entradas nesta cinessérie, temos efetivamente um massacre com a motosserra.
Se nos capítulos anteriores — salvo um trecho deletado do segundo filme — a motosserra era um símbolo empregado com maior presença em cenas de perseguição e mortes pontuais, aqui nós temos este momento, que não apenas traduz o conceito literal de um banho de sangue divertidamente descerebrado — me remetendo diretamente ao clímax e cena mais gore da masterpiece "Fome Animal" (1992) — como faz juz total ao nome do filme: MASSACRE da motosserra. Sim, motosserra, ignorem a picaretagem de "serra elétrica" da tradução brasileira, algo que pelo visto jamais será corrigido.
Agora, o ponto mais baixo e tenebroso dessa produção é o "retorno" — com todas as aspas do planeta e absolutamente picareta, de Sally Hardesty — imortalizada grandiosamente por Marilyn Burns (1949—2014), a final girl da masterpiece de Hooper. Quem assistiu ao trailer final, certamente viu que este projeto mergulhou na mesma tendência que "Halloween" (2018), bem como produções como "O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio" (2019) e tantos outras continuações que investem pesado no retorno de rostos conhecidos e idolatrados de grandes franquias. Agora... reparem que sequer toquei no nome de Sally até agora, certo? Por que será, não é mesmo?
Devemos classificar este como um dos piores — quiçá o pior — regresso de protagonista de um clássico. Agora, interpretada por Olwen Fouéré, sua personagem que outrora era tão importante e gerava uma empatia genuína com as plateias, é desempenhada vergonhosamente, com um atuação bizarra de tão caricata — O que diabos foi aquela risada maléfica numa cena de perseguição ao "Cara de Couro", produção fanfarrônica?! —, diálogos pavorosos, que literalmente insultam a boa fé do espectador e frases de efeito ultra manjadas e pior, com uma em especial vexaminosamente chupinhada de "Halloween" (2018). Sim, é desse naipe!
Em tempo, talvez, o verdadeiro retorno positivo de alguém realmente relevante à esta franquia seja o narrador John Larroquette, que para quem desconhece, é o responsável por imortalizar sua voz densa e perfeitamente cavernosa nas introduções do longa original de 1974 e no reboot de 2003. Esta foi provavelmente a notícia que mais me intrigou ao acompanhar as novidades sobre este lançamento, de longe e o resultado, conforme descrito acima, ficou realmente muito bom. Aliás, antes de conferir ao filme, torci para que o novo projeto resgatasse os letreiros tétricos e emblemáticos que introduzem os 4 primeiros longas da saga, mas não tivemos isto.
Indo mais além, outro fato que me deixou muito incomodado com esta "sequência" é, criminalmente, a inexistência da família Sawyer ou quaisquer remanescentes e relacionados, sem mencionar a ausência do elemento canibalismo, ambos tão cruciais nesta saga. Antes mesmo de redigir esta resenha, refleti que é surpreendentemente bizarro quando uma franquia tão genericamente espalhafatosa como "Velozes & Furiosos" abraçou muito mais os laços "familiares" do que o novo longa-metragem de "O Massacre da Serra Elétrica", saga essa que sempre prezou por este princípio. Fora que, novamente, perderam a oportunidade de reintroduzir o divertidíssimo e impagável Chop Top ("O Massacre da Serra Elétrica 2") à franquia. Tenho certeza que seu intérprete Bill Moseley certamente teria aceitado reprisar o papel mais marcante de sua carreira.
Falemos agora sobre Leatherface, nosso amado grandalhão. Aqui, ele é, definitivamente, o real adversário do enredo, algo que raramente é visto em seus longas, ao contrário do que muitos creem. Na maioria dos filmes, o vilão é retratado como o grande "cão de guarda e caça" das famílias Sawyer, Slaughter e Hewitt, contudo esta entrada é uma das poucas exceções entre suas nove produções onde o vilão é trazido com uma imponência ímpar e ameaça principal. Aliás, neste exemplar, é a única presença inimiga, porém não subestimem jamais esta releitura do maníaco.
"Peraí, Fanfarrão... Vai me dizer que agora ele também é sobrenatural?". Exatamente, cara pálida cheia de sangue e vísceras! O Leatherface sobrenatural introduzido aqui é uma antítese completa não apenas do antagonista da versão setentista, mas até mesmo das fitas anteriores. Para se ter noção, desta vez, o psicopata desta vez é motivado única e exclusivamente pela vingança, algo meio semelhante ao péssimo filme de 2013, porém em proporções ainda piores. Claramente, os realizadores deste projeto se inspiraram descaradamente em Michael Myers e seu "primo" de Crystal Lake, Jason Voorhees para caracterizar não apenas as justificativas como ações e comportamentos desta encarnação do matador texano.
Assistindo ao longa, o vilão também pareceu um herói/anti-herói de filmes de ação renegado em diversas ocasiões, quase um híbrido de Frank "Justiceiro" Castle com Michael e Jason. A cena onde o antagonista está no fundo de um automóvel, cuidando da Senhora MC, o rosto está encoberto pelo seu longo cabelo e penumbras, deixando seu olhar penetrante e repleto do mais incontido ódio à mostra. A direção desta cena é muito boa, pois seu olhar passa por cada um dos jovens, selando o destino de todos eles e rendendo uma abordagem visual que me remeteu diretamente a introdução de "A Balada do Pistoleiro" (1995).
Por sinal, falando em filmes de ação, o momento em que Leatherface quebra a parede de seu quarto com sua gigantesca e amedrontadora marreta, retirando a motosserra do longa original daquele local, imediatamente, me remeteu a "John Wick: De Volto ao Jogo" (2014), o que comprova a minha teoria de que tudo, absolutamente tudo nesta obra colabora direta e indiretamente para torcermos pelo mascarado sangue-frio. E sim, acreditem! A motosserra do primeiro filme ficou armazenada atrás de uma parede por meio século, sem empoeirar e enferrujar, convenientemente, para atender às vontades deste "roteiro" safadíssimo e preguiçoso como Garfield, permanece com o combustível em dia e certamente, funcionando e cortando tudo ao seu redor feito papel.
Tosco? Completamente, mas novamente nem me dei ao trabalho de me importar com isso. Na realidade, achei muito divertido a ideia de resgatar o modelo de motosserra do clássico de 1974, até para criar o mínimo de vínculo com aquele filme, assim como alguns elementos soltos aqui e acolá — o que inclui um tributo muito específico ao final do primeiro longa, arquitetado no encerramento desta versão de 2022 —, visto que, eliminando estas singelas similaridades, esta empreitada é meramente uma aventura de terror stand-alone de Leatherface.
Ah e por incrível que pareça, voltando a falar sobre pontos positivos, a obra também possui uma trilha sonora intrigante, desenvolvida por Colin Stetson ("Hereditário", "Red Dead Redemption II", A Cor que Caiu do Espaço"), musicista cujo repertório invejável cresce exponencialmente. É legitimamente uma pena que sua arte seja empregada numa obra pouco inspirada em termos de conceitos e ideias, entretanto não mentirei que achei muito bom ver alguém de seu gabarito envolvido com a franquia. Infelizmente, não em uma entrada digna de seu empenho, mas faz parte. Confesso que foi outro ponto que me deixou levemente curioso para conferir o produto final, uma vez que sou apaixonado por trilhas orquestradas e similares e, sem dúvidas, seu trabalho é deveras magnífico e influente, em tempos mais recentes.
Que fique bem claro que o que direi a seguir NÃO é um spoiler e não afetará em absolutamente nada em sua experiência, caso ainda pretenda assistir ao filme: há uma cena pós-créditos que busca por uma aproximação direta com a longa original, porém somente o tempo dirá qual será o rumo dessa saga. Honestamente? Espero que deixem Leatherface, sua motosserra, martelo, máscara e apetrechos armazenados no mesmo freezer apresentado naquele filme antológico e por um generoso tempo.
Pensa numa franquia que precisa de um hiato para uma profunda revisão de ideias. Pois bem, esta necessita beeem mais do que isso, na realidade. Falta uma real vontade de se criar algo realmente vantajoso para esta série. Acredito sim que existem conceitos que poderiam render novos longas realmente bons, porém enquanto isso não acontece, é melhor parar de chutar tatus mortos pelas estradas do Texas. Manjadores manjarão!
Direto e reto, assim como o ritmo assustadoramente frenético desta produção, "O Massacre da Serra Elétrica: O Retorno de Leatherface" é sim, mais uma sequência caça-níquel e, para a surpresa de absolutamente ninguém, outra entrada que nada acrescenta ao universo do "Cara de Couro". Por outro lado, eu estaria sendo muito injusto se dissesse que não me diverti assistindo à esta grandessíssima bobagem ultraviolenta e devo dizer algo inegável: ao menos é um produto que é honesto em sua premissa de meramente ser um slasher old school desmiolado, sem jamais tentar alçar voos que não condizem com sua altura — com exceção de sua tentativa frustrada de tentar soar inteligente e engajado ao empregar comentários e pautas sociais atuais que não combinam em nada por aqui e pior, tampouco chegam em algum lugar.
Talvez para alguns que leem este texto, após tantas "broncas", possa soar que repudiei este carnaval de tripas quase que completamente, contudo não se enganem. Ao contrário do que muitos vem dizendo Internet afora, é possível sim apreciar esta produção como um mero entretenimento vazio e sem grandiosas pretensões e, definitivamente, está anos-luz de ser a pior entrada desta franquia. Creio que nada, absolutamente nada é capaz de desbancar o "magnânimo" título de "O Massacre da Serra Elétrica: O Retorno" como a pior empreitada desta saga, uma produção completamente porca e indefensável, que "majestosamente" merece o hors concours em termos de ruindade e qualidade absurdamente deplorável.
Saldo final: considero este novo "Massacre" quase do mesmo patamar que o igualmente despretensioso e old school — em termos de gore e carnificina desequilibrada — "Halloween Kills: O Terror Continua". Podemos resumir esta nova aventura sangrenta de Leatherface como "O filme que mirou em 'Halloween' (2018) e acertou em sua sequência mequetrefe, 'Halloween Kills'!". É ruim? Olha, se você avaliar como uma sequência DAQUELA masterpiece que Hooper criou e até mesmo em comparação a outros exemplares superiores e mais interessantes da saga, certamente que é. Mas tal como o mais recente episódio de Michael Myers, diverte e funciona como uma brutal e asquerosa diversão escapista.
Uma dica fanfarrônica: caso esteja irritado com algo e/ou alguém, ou até mesmo apenas queira uma besteira que possa te entreter em cerca de 1 hora e 20 minutos de duração, esta é uma ótima pedida. O término desta experiência cinematográfica grotescamente tosca irá ser muito satisfatório, acredite. Observação final: apesar da minha "nota oficial" ser baixa, devo reforçar que a mesma foi aplicada com base no que este trabalho é ao meu ver sob a ótica de "obra cinematográfica". Se fosse avaliar meramente pelo âmbito de diversão "passatempo", seria um pouco mais elevada.
Saldo fanfarrônico final:
Fanfatosquice (2 estrelas de 5)
Redigido por David "Fanfarrão" Torres"
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