"Halloween II: O Pesadelo Continua!" (1981)
Título original: "Halloween II"
Gênero/Subgênero: terror/slasher
Dirigido por: Rick Rosenthal
Elenco parcial: Donald Pleasence, Jamie Lee Curtis, Charles Cyphers, Dick Warlock, Lance Guest e Nancy Stephens
País de origem: Estados Unidos
Duração aproximada: 92 minutos
Produtora: Dino De Laurentiis Corporation
Distribuidora: Universal Pictures
"All New. From The People Who Brought You 'Halloween'... More Of The Night HE Came Home."
Para quem imaginou que eu apenas registraria minhas impressões fanfarrônicas à respeito de "Halloween Kills: O Terror Continua" (2021) e ignoraria essa clássica segunda parte concebida em 1981 e que completou no finalzinho do mês passado o seu 40º aniversário, pensou errado! Com o sucesso inacreditável da legítima obra-prima e fita pioneira de sua safra "Halloween: A Noite do Terror" (1978) e a repetição do mesmo feito com sua "cópia barata", segundo alguns detratores questionáveis, que atende pelo nome de "Sexta-Feira 13" (1980) e claro, o nascimento dos formidáveis e nostálgicos anos oitenta, o terror deu origem a sua tão aclamada "era de ouro", onde tivemos a inevitável eclosão exponencial e assustadora do subgênero slasher.
De repente, uma leva de produções de baixo orçamento nesses moldes eram lançadas, com uma frequência tão absurda quanto a contagem de corpos dos antagonistas desses longas-metragens. E claro, da mesma forma que "Sexta-Feira 13" recebeu sua primeira sequência no ano de 1981, "Halloween" não poderia ficar atrás, e então, em outubro daquele mesmo ano chegou aos cinemas "Halloween II: O Pesadelo Continua!", um filme que pode ser interpretado facilmente como uma legítima antítese de seu antecessor, realizado 3 anos antes.
Se por acaso o longa comandado pelo cineasta John Carpenter ("Eles Vivem", "Christine: O Carro Assassino", "À Beira da Loucura") é sutil e constrói todo o suspense e tensão progressivamente, sem focar na violência explícita e no sangue em profusão, "Halloween II" investe justamente na mesma fórmula que "Sexta-Feira 13" e 99% das sequências de horror optam, ou seja, um número ainda mais exorbitante de vítimas, assassinatos ainda mais viscerais, sanguinolentos e elaborados, além de um ritmo mais acelerado e a inserção de outros elementos absurdos que podem tanto agradar como desagradar o mesmo público.
Agora, o que eu, o Fanfarrão da aba reta e "resenhadô" penso à respeito dessa fita oitentista que completa 40 primaveras em 2021? Oras pois, não sejam preguiçosos e se aventurem pelas linhas seguintes para descobrirem. Bora embarcarmos nesse passeio sanguinolento e inquietante por Haddonfield, Illinois (EUA) e degutarmos um pouquinho mais da loucura ofertada a todxs nós da noite em que ELE voltou para casa. Estão preparados? Pois vistam seus macacões e máscaras de Capitão Kirk "adaptadas", e claro, não se esqueçam de pegar seus facões de cozinha afiadíssimos.
Prosseguindo do exato ponto onde o original parou, essa sequência continua nos apresentando a caçada de Dr. Loomis, papel imortalizado por Donald Pleasence (1919 — 1995) ao serial killer incontrolável e calculista Michael Myers (Dick Warlock), tudo isso ainda na madrugada da mesma noite de Halloween, de 1989 — a infame "noite em que ELE voltou", na pacata cidadezinha de Haddonfield. Simultaneamente, a nossa também heroína, vítima e babá adolescente Laurie Strode (Jamie Lee Curtis), também está de volta e foi levada ao hospital após o confronto mortal com o maníaco mascarado. Porém, a paz de Laurie se demonstra temporária quando o psicopata se dirige ao local para tentar matá-la mais uma vez, ao mesmo tempo em que promove um novo massacre.
Ainda não vou entrar em território de spoilers, porém comentando alguns pontos bem interessantes, o filme se inicia brilhantemente com o clássico tema "Mr. Sandman" (The Chordettes) sendo executado nos segundos iniciais. Seus arranjos e linhas harmônicas estimulam aquela sensação de desconforto e estranhamento típicos quando uma canção agradável se contrapõe a proposta oferecida, ampliando ainda mais a atmosfera de medo e mistério.
Em seguida, temos um breve flashback do encerramento do primeiro filme, recurso que, tal como mencionei em minha análise de "Sexta-Feira 13 Parte II" (1981), era frequentemente utilizado décadas atrás, justamente por ser considerado uma tática simples de contextualizar os espectadores aos novos capítulos de uma saga. Esse mesmo recurso também é muito popular em seriados, como muitos de vocês bem devem saber.
E claro, ainda falando sobre a abertura do filme, é impossível não destacarmos os créditos iniciais, que seguem uma cartilha similar a do filme antecessor, porém dessa vez de forma mais gráfica e sinistra, com um crânio sendo revelado de dentro de uma abóbora, referenciando a arte que estampa o emblemático pôster promocional, tudo isso embalado pela releitura tétrica do "Halloween Theme" de Carpenter, agora executado em parceria com Alan Howarth, que se tornaria outra peça fundamental da franquia à partir daí.
Além de tudo isso, nos primeiros instantes do longa, quando Michael Myers invade um lar de um casal para roubar um novo facão de cozinha, está sendo exibido na TV uma cena do igualmente clássico "A Noite dos Mortos Vivos" (1960). Sempre achei fascinante como a saga "Halloween" presta homenagens sutis e muitíssimo bem-vindas ao gênero em muitos de seus filmes e aqui não é diferente, mostrando como é uma franquia que está, de alguma forma, em sintonia com o que anda rolando no meio.
Conforme mencionei antes, "Halloween II" é um genuíno exemplar do slasher oitentista e não hesita em apelar para uma quantidade invejável de vítimas, além de mortes ainda mais grosseiras e repulsivas. Para quem é entusiasta dessa vertente, a obra cumpre perfeitamente com sua premissa básica e direta, nos brindando com um cardápio bastante variado de óbitos, incluindo agulhadas nos olhos, degolações grotescas, um atropelamento acidental que resulta numa explosão pra lá de exagerada, uma enfermeira nua tendo seu rosto queimado em temperaturas elevadas em uma sauna e por aí vai.
Por outro lado, essa aura mais "bagaceira" e sem qualquer finura certamente poderá incomodar os apreciadores do filme original, que conservava para si um atmosfera mais intimista e como bem frisei, sutil. Definitivamente, sutileza e "Halloween II" não são sinônimos. O que não falta aqui é uma boa oportunidade para o caos se instalar e o sangue jorrar, pura e simplesmente.
ALERTA DE FANFASPOILER!
Prossigam com muita cautela à partir de agora. Após FIM DO FANFASPOILER, já sabem. Podem ler sem medo de serem (in)felizes.
Honestamente, creio que para quem é um fã mais antigo da série os 2 parágrafos abaixo já são eventos bem conhecidos, porém como sei que tem uma galera nova descobrindo a franquia agora graças aos novos filmes, de forma alguma bancarei o estraga-prazer. Uma coisa é ser Fanfarrão e outra, pau no cu. Bora lá!
Aparte de todo o espetáculo sangrento e divertidamente escapista aqui presente, esse segundo capítulo nos entrega, sem qualquer cerimônia um plot twist que, até os dias atuais, é motivo de controvérsia entre a fanbase, que é a revelação próximo ao fim do filme sobre os laços sanguíneos de Michael e Jamie. Simplesmente do nada, somos informados de que ambos são nada mais nada menos que irmãos. Uma tentativa frustrada — vai depender de cada um — de repetir dentro do gênero de terror o feito que Star Wars cometeu com tamanha perfeição em "Star Wars: Episódio V – O Império Contra-Ataca" (1980), talvez?
Brincadeiras e fanfarronices à parte, esse conceito pra lá de divisivo, concebido pelo criador John Carpenter, apenas surgiu, segundo declarações do mesmo, após se embriagar com caixas de Budweiser. O cineasta estava sem ideias e no maior método "fuck off", literalmente "meteu o louco", "tacou o foda-se" ou qualquer outra expressão/gíria que vocês queiram inserir aqui.
Sinceramente, é totalmente compreensível, visto que Carpenter não pretendia produzir e tampouco desenvolver uma sequência para o longa-metragem original comandado por ele, ao menos não naquele momento de sua carreira, onde visava dedicar seu tempo a outros trabalhos estonteantes. Para a total felicidade de muitos, Michael e Laurie deixaram de ser irmãos na atual continuidade da franquia, como todxs aqui devem saber à essa altura do campeonato.
Outro ponto importante, seja para o bem ou para o mal, é que "Halloween II" deu origem às igualmente polêmicas explicações sobrenaturais a toda mística de Michael Myers. Foi aqui que passaram a envolver o antagonista mascarado com a entidade malevolente Samhain, o "Senhor dos Mortos", algo que, inevitavelmente nos levaria aos controversos eventos da "Trilogia Thorn" da franquia, que compreende os filmes 4, 5 e 6.
Por mais que eu pretenda tocar neste assunto mais detalhadamente em análises futuras, devo dizer que a menção a Samhain e os elementos aqui apresentados ainda não me incomodem, visto que era algo mais contido, atmosférico e que, de uma certa forma, reprisava a abordagem do primeiro filme, em especial aos diálogos proferidos com tanta devoção pelo antológico e queridíssimo personagem Dr. Sam Loomis, interpretado pelo inesquecível Donald Pleasence.
Em contrapartida, se Pleasence continua brilhante como Dr. Loomis, já não posso dizer o mesmo da igualmente maravilhosa e veterana Jamie Lee Curtis, que reprisa o seu também icônico papel como Laurie Strode. A nossa tão querida heroína passa boa parte do filme anestesiada, deitada em uma cama de hospital e completamente esquecida na trama, que foca na perseguição desesperada do incansável Loomis contra Myers.
Deixar Laurie de escanteio dessa maneira, principalmente levando em consideração toda a relevância da personagem e de seu arco no longa antecessor é um balde de água fria indescritível. Não me admira que, anos mais tarde, em "Halloween H20: Vinte Anos Depois" (1998), o projeto foque muito mais em Laurie do que no próprio Michael. Claramente é uma espécie de redenção a personagem.
Além dessas problemáticas que mencionei até agora, não podemos deixar de mencionar outros clichês típicos do subgênero que incomodam nem que seja o mínimo possível, como alguns personagens que tomam decisões pra lá de estúpidas e questionáveis. Entretanto, absolutamente nada me deixa mais "incomodado" do que o simples fato do Hospital Memorial de Haddonfield ser mais deserto que um show independente de música pesada e rápida. É incrível como, simplesmente do nada, um local que antes aparentava ao menos possuir um número razoável de enfermeiro(a)s, médico(a)s e pacientes dá lugar a um ambiente cada vez mais vazio.
Sim, confesso que adoro o clima claustrofóbico que a produção nos apresenta, em especial nos trechos mais tensos, como a perseguição de Myers a Laurie ou ainda outros onde o diabólico "The Shape" caminha ou apenas está à espreita, pronto para atacar quando menos esperarem. Isso realmente não há como reclamarmos e é justamente por isso que inseri aspas quando disse que fico "incomodado" com este hospital ser tão deserto. Todavia, creio que a forma como nos entregam esse ambiente é inverossímil e forçada demais em incontáveis trechos e apenas serve para comprovar como o roteiro abraçou os absurdos que tantas outras franquias slashers se tornaram, em especial a saga rival "Sexta-Feira 13".
FIM DO FANFASPOILER!
Antes de encaminharmos para o fim, seguem outros pontos importantes de serem destacados. Primeiramente, tal como o filme anterior, "Halloween II" recebeu uma versão para TV, com alternâncias nas ordens de cenas e mudanças consideráveis aqui e acolá, algo que certamente contribui para experiências/interpretações diferentes da obra. Também existe um final alternativo que, particularmente, vale mais pela curiosidade em si. À quem se interessar, é possível encontrar tudo isso muito facilmente Internet afora.
Aos fãs de máscaras e que reparam nos mínimos detalhes — assim como o Fanfarrão que vos escreve, a máscara de Myers deste longa, ao contrário do que muitos devem imaginar, na realidade é sim a original, utilizada no clássico de 1978. Os motivos dela estar ligeiramente diferente são o fato do rosto do novo ator do vilão, Dick Warlock, ser maior que o de Nick Castle, o intérprete original, além também da produtora Debra Hill ter deixado a máscara debaixo de sua cama durante um período considerável e, visto que era uma fumante assídua, isso contribuiu para o aspecto mais amarelado e deteriorado que presenciamos no longa.
Da mesma maneira que "Poltergeist: O Fenômeno" (1982), onde a produção de Steven Spielberg pode ser sentida à quase todo instante sob a direção do saudoso Tobe Hooper (1943 — 2017), essa entrada possui diversos momentos e ideias que claramente foram idealizadas pelo seu criador original, o mestre John Carpenter e, inquestionavelmente, aqueles que, assim como eu são muito familiarizados e curtem o trabalho do cineasta, vão flagrar ou conseguem enxergar o seu estilo à quilômetros, embora a direção seja assinada por Rick Rosenthal, que à título de curiosidade dirigiu um dos piores filmes dessa franquia, "Halloween: Ressurreição" (2002). Mas isso será tema para um outro texto, é claro...
Pra finalizar, "Halloween II: O Pesadelo Continua!", como uma obra cinematográfica, indubitavelmente passa anos luz de ser uma produção que caminha na mesma direção cautelosa e segura, muito pelo contrário. Contudo, isso não afeta a nossa admirável capacidade de "desligarmos o nosso cérebro" e apreciarmos essa deliciosa bobagem macabra, executada de forma criativa e que cumpre muito bem aquilo que visa nos entregar: um slasher raiz, simples assim.
Happy 40th Anniversary, "Halloween II" e não se esqueçam de revisitar essa joia oitentista sempre que possível. A todxs que desconhecem e se interessaram após essa leitura, confiram sem ter medo de se divertirem.
Redigido por David "Fanfarrão" Torres
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