domingo, 31 de outubro de 2021

[Hellease] "Halloween Kills: O Terror Continua" (2021)



"Halloween Kills: O Terror Continua" (2021)

"Halloween Kills: O Terror Continua" (2021)
Título original: "Halloween Kills"
Gênero/Subgênero: terror/slasher
Dirigido por: David Gordon Green
Elenco parcial: Jamie Lee Curtis, Judy Greer, Andi Matichak, Anthony Michael Hall, Robert Longstreet, Dylan Arnold, Will Patton, Kyle Richards, Charles Cyphers, Nancy Stephens e Thomas Mann
País de origem: Estados Unidos
Duração aproximada: 105 minutos
Produtora: Blumhouse Productions
Distribuidora: Universal Pictures

"Evil dies tonight"

"The saga of Michael Myers and Laurie Strode isn't over"

"You can't kill the boogeyman"

"More of the night evil came home, 40 years later"

"Let it burn"

"Three generations Strode strong"

Após o lançamento do bem-sucedido retorno do sanguinário e incontrolável Michael Myers em "Halloween" (2018), a tão aclamada continuação direta da obra-prima original de 1978, era apenas uma questão de tempo para que uma nova sequência fosse anunciada. E assim foi, é claro! Quando se fala de um projeto dessa magnitude, especialmente levando em consideração a memória afetiva que cerca não apenas o intimidador e clássico antagonista mascarado, como também a heroína/final girl badass e chutadora de bundas mesmo na terceira idade Laurie Strode (Jamie Lee Curtis, no papel que a canonizou como a eterna Scream Queen, a "Rainha do Grito") e ainda tendo em mente toda a repercussão e lucro gerados ao redor do globo mediante este novo capítulo da saga "Halloween", o inevitável ocorreu.

A ofegante e simultaneamente sinistra respiração de Myers no finalzinho dos créditos finais da produção realizada em 2018 foi a deixa precisa para que a Blumhouse Productions desse sinal verde não apenas para um, porém dois novos episódios da franquia. Os títulos confirmados são, respectivamente, o longa recém-lançado neste mês e na qual falarei à respeito nesta análise e o vindouro "Halloween Ends", cuja previsão de lançamento é para outubro de 2022.

Ou seja, à partir daí, entramos em território de trilogias. Território esse que, ora se demonstra totalmente favorável, rendendo continuações brilhantes e atemporais, como "Uma Noite Alucinante 2" (1987), "De Volta Para o Futuro 2" (1989), "O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final" (1991), "O Poderoso Chefão II" (1974) ou "Batman: O Cavaleiro das Trevas" (2008) e em outros casos, tende a apresentar sequências que oscilam entre razoáveis, medíocres, divertidas, porém mais do mesmo ou meros caça-níqueis desnecessários e repletos de firulas e "encheções de linguiça" pra lá de pretensiosas, cujo único intuito é angariar mais cifrões em torno daquilo que já foi estabelecido e funcionou anteriormente. 



Infelizmente, "Halloween Kills: O Terror Continua" se enquadra no segundo exemplo e mais abaixo detalharei o motivo disso, apresentando todas a minha percepção, elogiando aonde se deve e claro, apontando também alguns pontos baixos dessa entrada tão aguardada por muitos. Que fique claro desde já que, nem de longe quero desmotivar quem ainda não assistiu a esta sequência. É apenas a minha ótica e análise, o que não é nenhuma verdade absoluta, ok? Sem mais delongas, vamos ao que interessa!

Lançado oficialmente em outubro deste ano, após uma espera inquietante de 3 anos, "Halloween Kills: O Terror Continua" continua exatamente do mesmo ponto onde o filme anterior se encerrou. Michael Myers (James Jude Courtney/Nick Castle), o indestrutível serial killer mascarado de Haddonfield, Illinois (EUA) sobrevive ao incêndio e à armadilha plantada por Laurie Strode (Jamie Lee Curtis), sua filha Karen (Judy Greer) e sua neta Alysson (Andi Matichak) — para a surpresa de um total de zero pessoas, é claro — e, sem perder tempo e muito menos apresentar qualquer misericórdia, chacina brutal e criativamente todos os bombeiros do local. Enquanto o sangue é despejado pela cidade, Laurie tenta se recuperar do confronto violento com o maníaco, enquanto uma legião de habitantes da cidade decide fazer justiça com as próprias mãos e fazer daquela a última noite de terror para "The Shape".



Direto e reto, assim como a fita em si, "Halloween Kills" não possui uma narrativa linear e sequer algo que possa ser classificado como um roteiro. O que temos é basicamente uma base ou um fio condutor para que as situações se desenrolem "naturalmente", em particular as mortes, que definitivamente são o ponto alto por aqui. Diria que, se este filme fosse um álbum de alguma banda/artista, seria uma coletânea "Best Of"/"Greatest Hits" de sua era de ouro, visto que temos um compilado de referências e tributos ao passado da longeva saga, entretanto, assim como muitas dessas compilações, acaba soando como um "filler", sem apresentar quaisquer novidades.

Se o longa que o antecede se afastava completamente das problemáticas abordagens e recursos utilizados no decorrer das décadas de existência da franquia, o mesmo já não pode ser dito de "Kills", que investe em tomadas de decisões pouco assertivas. Assim como "Halloween II: O Pesadelo Continua!" (1981), esta nova fita é uma antítese tanto do longa original como de sua sequência de 2018. Se a produção lançada há 3 anos era mais discreta, construindo o suspense e a tensão progressivamente, tal como a clássica obra-prima de 1978, o inédito capítulo da série não pensa duas vezes em apelar para os mesmos elementos repetitivos que tornaram a franquia alvo de severas críticas por décadas.



Mas Fanfarrão, que elementos tão divisivos são esses que você tanto se refere, afinal? Subtramas paralelas, pontas soltas, excesso de personagens, diálogos que variam do brega/repetitivo ao mais expositivo possível, além de um contraditório apoio nos clichês das próprias sequências que renegou, incluindo até mesmo renegar a heroína badass Laurie Strode a uma mera personagem secundária — sim, os pôsteres e trailers te enganaram bonito e vou discorrer mais à respeito nas próximas linhas —, algo que já havia ocorrido no passado. É impressionante como essa galera de Hollywood jamais aprende com seus erros. Ah e claro, ainda temos um encerramento abrupto e que prepara o terreno para a terceira e aparentemente última parte. Mais uma vez, temos aquela típica sequência que se preocupa mais com o que virá à seguir do que o aqui e agora.

Apesar dos pesares, uma coisa é certa: os legítimos fãs do subgênero slasher vão pirar com a condução dos assassinatos, que não apenas são muito engenhosos, brutais e sanguinolentos, como alguns dos mais bem concebidos, exagerados e grotescos da franquia inteira, com o gore em absoluta profusão. Ouso dizer que, ao lado do original de 1978, "Halloween" (2018) e esta sequência são, até ao momento, os longas mais bem produzidos da série, principalmente no que diz respeito a trilha sonora, fotografia, design de produção, edição, direção e todo aspecto técnico que se preze.



Se você é um daqueles fãs que sentiu falta de uma quantidade mais substancial de mortes on screen ("na tela") no longa de 2018, fique sabendo que aqui você encontrará uma redenção sangrenta para isso, pois nada é desperdiçado e praticamente tudo é exibido em nossa fuça. A pilha de cadáveres se acumula à todo instante, um feito capaz de dar inveja não apenas aos "colegas de profissão", como Jason Voorhees ("Sexta-Feira 13"), Leatherface ("O Massacre da Serra Elétrica") e Freddy Krueger ("A Hora do Pesadelo"), como até mesmo aos filmes antecessores da saga. Confira e se surpreenda com a contagem de corpos pra lá de absurda e surreal.

Sem entrar em muitos detalhes para não entregar spoilers e estragar a surpresa dos demais, também existe aqui um subtexto para o fato de Michael jamais ser derrotado, reforçando o conceito original de como o antagonista é o mal encarnado, vazio e inumano/desumano. Até o momento, tudo está sendo desenvolvido de maneira sagaz e correta, sem apelar para justificativas estapafúrdias, tais como às presentes no quarto, quinto e sexto longa da saga (a polêmica "Trilogia Thorn") ou ainda as "filosofias de buteco" e "forçações de barra" do reboot e sua abominável sequência, comandados pelo músico Rob Zombie. Que essa postura correta se mantenha, pois o último artifício que precisamos é uma justificativa exagerada para quem ou o que Myers é. O mistério em volta do vilão é o que lhe dá sua força e torna "The Shape" tão ameaçador, sinistro e imprevisível. Ou seja, quanto menos soubermos sobre ele e sua mística, melhor.
                               


Assim como no longa de 2018, o que não faltam são tributos muitíssimo bem feitos aos clássicos filmes da saga, tanto o original de 1978, como outros, em especial os mais emblemáticos e essas homenagens incluem recriações/reimaginações de cenas antológicas, uso de planos similares aos de cenas clássicas, outras referências diretas e claro, o retorno de diversos personagens relativamente memoráveis para os fãs mais hardcore, como Lonnie Elam (Robert Longstreet), Tommy Doyle (Anthony Michael Hall), Lindsey Wallace (Kyle Richards), xerife Lee Brackett (Charles Cyphers) e Marion Chambers (Nancy Stephens) voltam a dar as caras e, olha só, alguns deles voltam a ser interpretados pelos menos atores que os encarnaram no longa-metragem de estreia. Pra ser mais exato, os personagens Wallace, Brackett e Chambers.

Diga-se de passagem, manjam um personagem irritante? Pois é, o Tommy Doyle dessa versão consegue ser ainda mais, podem apostar. Não vou estragar a experiência de ninguém, mas quem ainda não assistiu, apenas tire as suas próprias conclusões. E claro, para a imensa felicidade dos apreciadores de longa data, incluindo este que vos escreve, temos o retorno das máscaras da Silver Shamrock, originalmente presentes em "Halloween III: Noite das Bruxas" (1982). Na realidade, no filme de 2018, elas já haviam dado as caras novamente, mas aqui nós temos um maior tempo de tela para vê-las e isso é completamente impagável de maravilhoso.




ALERTA DE FANFASPOILER!

Prossigam com muita cautela à partir de agora. Após FIM DO FANFASPOILER, já sabem. Podem ler sem medo de serem (in)felizes.

Bem no início do filme, temos um flashback genial e muito bem construído que reimagina os eventos após o filme original. Nele, vemos o encontro de Michael Myers (nessa introdução, interpretado por Airon Armstrong) como o até então garotinho Lonnie Elam (Tristian Eggerling) e também a prisão do homicida após um confronto pra lá de mortal com alguns policiais. Em cenas bem rápidas, podemos ver uma participação especial de um dos personagens mais queridos de toda saga e sim, falo de ninguém mais ninguém menos que Dr. Sam Loomis (agora, encarnado por Tom Jones Jr.). Tal como foi dito em entrevistas, nenhum recurso de computação gráfica (amém!) foi utilizado para a reconstrução, apenas efeitos práticos e maquiagem, tornando o atual intérprete uma réplica muito fiel do célebre Donald Pleasence (1919 — 1995). O finado ator britânico certamente teria ficado muito orgulhoso com essa homenagem.


Além disso, é incrível como esse flashback inicial é um deleite completo, resgatando a atmosfera gélida e soturna do longa clássico de 1978, reverenciando enquadramentos, ideias e tudo aquilo que torna "Halloween" de 1989 uma masterpiece intocável. Uma execução totalmente irrepreensível e tal, como no filme de 2018, os créditos/abertura tornam a homenagear a saga, agora pagando um tributo honesto e icônico a abertura de "Halloween II: O Pesadelo Continua!", algo que eu tinha plena certeza que ocorreria desde o primeiro momento em que o filme foi anunciado e principalmente concebido. E claro, toda essa experiência se torna ainda melhor quando embalada pela nova releitura do eterno "Halloween Theme", novamente executada, assim como em 2018, por Carpenter em parceria com seu filho, Cody Carpenter e Daniel A. Davies.

FIM DO FANFASPOILER!
Observando por outro ângulo, conforme mencionei em parágrafos anteriores, outro ponto que certamente incomodará os fãs de longa data, assim como eu, é o pouquíssimo tempo de tela da veterana Jamie Lee Curtis. Tal como em "Halloween II: O Pesadelo Continua!", a atriz tem pouquíssima relevância na trama, algo que comprova pela enésima vez como trailers enganam muito e, neste exemplar, é recatada a uma mera coadjuvante, dando espaço para uma legião de verdadeiros zé ruelas insuportavelmente burros e que vão incomodar muitos espectadores com a frase "O mal morre esta noite!". 

Portanto, se você achava que ficar com o jingle da Silver Shamrock, de "Halloween III: A Noite das Bruxas" o dia inteiro após assistir a aquele filme era um problema, reveja os seus conceitos agora com "Halloween Kills". Boa sorte para se livrar dessa frase de sua cabeça quando terminar de assistir a sequência. 


Papo seríssimo: algumas frases de efeito soam legais na primeira ou segunda vez — ou momentos chave — e funcionam muito bem dadas as circunstâncias dos eventos de forma generalizada, principalmente levando em consideração que a trama acontece em uma cidadezinha pequena e totalmente afetada pelos horrores de um assassino psicopata e desprezível. Vejam bem, é perfeitamente natural que cada personagem tenha sim a sua própria maneira de lidar com seus traumas e/ou anseios, em especial aqueles que se depararam com o maníaco no longa original. O grande problema é a repetição enjoativa e completamente enfadonha dessa maldita frase.

Tamanha repetição desnecessária e tosca banaliza o seu significado com gosto e a torna motivo de chacota e irritação, sem mencionar os diálogos pouquíssimos inspirados, inexpressivos como a máscara de Myers ou então expositivos ao extremo de muitas cenas, algo que afeta ainda mais a qualidade da produção. 

Também é importante dizer que existe uma brecha até interessante para uma crítica ao comportamento de manada em uma cena tensa no hospital, envolvendo a enfurecida população de Haddonfield e um paciente foragido do Sanatório Smith's Grove. A construção desse segmento é de fato belíssima e até promove um arco dramático ousado na medida do possível, mas que acaba destoando do restante da narrativa. O fato é que, com tantos assassinatos se desenrolando, chega a um ponto onde paramos de nos importar com praticamente todos, salvo a nossa querida heroína Laurie Strode, é claro e talvez sua filha e neta, que evidentemente possuem a sua relevância.




O saldo é este: "Halloween Kills: O Terror Continua" pode apresentar incontáveis defeitos e problemáticas em sua narrativa, entretanto se existe algo na qual ele é completamente bem-sucedido é no que diz respeito a carnificina e assassinatos não apenas desenfreados, contudo extremamente viscerais, brutais e inventivos, sem mencionar os fan services bem encaixados. É uma sequência caça-níquel? Certamente que sim, até mesmo porque a trama da fita antecessora é bem "redonda" e enxuta. Contudo, não significa que não possamos nos divertir com essa bobagem despretensiosa e divertidamente diabólica e violentíssima. E sejamos francos, se compararmos este filme com tantas tranqueiras que foram produzidas no decorrer da trajetória dessa franquia, essa entrada ganha de lavada. 

Não existem segredos para assistir a essa produção, especialmente se você já for familiarizado(a) com o subgênero. Veja com expectativas moderadas, em hipótese alguma vá com muita sede ao pote, "desligue o seu cérebro" e abrace a loucura e galhofa típicas de um slasher oitentista bagaceira, tudo isso sem receio de ser feliz e/ou de abrir um sorrisão de orelha a orelha com Michael trucidando bombeiros em seu triunfal retorno na cena incêndio ou testando facas diferentes nas costas de uma vítima em um trecho pra lá de angustiante também no início da fita.


Trata-se de um projeto que, definitivamente, não falha ao cumprir exatamente aquilo que promete: incontáveis mortes e o melhor de tudo, não perde tempo com clichês chatos e repetitivos dos anos oitenta, inclusive da própria saga, como cenas de nudez e sexo gratuitas que não levam a lugar nenhum, partindo logo para a ação — neste caso, o terror. Porém, por mais que ser direto seja seu "trunfo", os defeitos são meramente mascarados pela direção segura e pela produção requintada. É sim um filme mediano e que poderia sim ter sido muito, MUITO melhor, caso existisse um roteiro linear e desenvolvido como se deve, sem deixar de oferecer amplo espaço para o trio de heroínas se destacar, principalmente Laurie. Todavia, ainda é um passatempo divertidamente insano.

"Isso é tudo, pesso... Oops! Fanfarrões e Fanfarronas!". Um Feliz Halloween e Dia do Saci a todxs — ainda que aos 45 do segundo tempo — e claro, ficaremos no aguardo do suposto capítulo final dessa trilogia. Veremos o que nos aguarda. Pessoalmente, que a parte final esteja à altura dos filmes de 1978 e 2018, porém combinando a violência truculenta e exagerada deste episódio aqui. Quem sabe, através de um híbrido equilibrado de ideias, sejamos presenteados com uma sequência mais digna e intrigante. Só o tempo dirá.


Saldo fanfarrônico final:

Fanfarromeno (2 estrelas e meia de 5)

Redigido por David "Fanfarrão" Torres

Nenhum comentário:

Postar um comentário