Sucintamente, a trama desse segundo capítulo se inicia apenas 2 meses após o massacre no Acampamento Crystal Lake, em 1979. Nos minutos iniciais, a protagonista e única sobrevivente do primeiro longa, Alice Hardy (Adrienne King), acorda de um pesadelo no meio da noite, onde podemos testemunhar de camarote um extenso flashback de parte do encerramento do "Sexta-Feira 13" original, incluindo os infames — no melhor sentido da palavra — plot twist e jumpscare do clássico de estreia.
Sem a menor cerimônia, a heroína do episódio anterior é despachada violentamente por um novo e desconhecido psicopata de camisa xadrez, logo após encontrar na geladeira de sua casa a cabeça em decomposição de Pamela Voorhees, a insana assassina daquele filme e também mãe de nosso atual vilão. 5 anos depois da morte de Alice, um novo acampamento próximo às imediações do desprezível "Camp Blood" é aberto e novos e horrendos assassinatos passam a ocorrer.
Ou seja, tal como antes, temos uma introdução chocante e que prepara o terreno para tudo o que está por vir, novamente seguida pelos créditos iniciais, embalados pela sempre assustadora e icônica trilha sonora de Harry Manfredini, que em minha humilde opinião é um dos principais responsáveis pelo sucesso imenso dessa cinessérie. Assim como em todo slasher mais tradicional e especialmente oitentista, a trama que se segue é bem simples e sem firulas, porém bastante funcional para a proposta aqui apresentada.
Da mesma maneira que seu antecessor, essa produção foi massacrada pela crítica, assim como incontáveis fitas slashers de seu tempo. Tal como boa parte das entradas da franquia, o filme foi recebido de forma hostil principalmente pela repetição da mesma fórmula entregada no primeiro exemplar. Entretanto, dentro de seu nicho, "Sexta-Feira 13 Parte II" é sim uma sequência bastante divertida, ainda mais dinâmica e igualmente importante, seja para a saga como para o filão de assassinos mascarados e/ou misteriosos nas telas, tendência essa que foi um dos fatores cruciais para a década de oitenta ser considerada a era de ouro do horror.
E sinceramente? Ainda que o longa de estreia seja evidentemente muito mais relevante em todos os contextos, essa continuação me cativa e me diverte muito mais, seja pelo seu ritmo moderadamente mais veloz, como também pelo surgimento de Jason, que mesmo não estando em sua forma mais brutal, já apontava ser um vilão mais ameaçador e até mesmo mais convincente que sua diabólica e vingativa mãe.

Uma baixa considerável para essa sequência é a ausência do "goremaster" Tom Savini. Sua inventividade e talento foram primordiais para o primeiro e quarto longa da série, entretanto foram os únicos filmes que Savini aceitou colaborar. Nessa sequência, apesar de não contarmos com o carismático maquiador arquitetando cada ato violento de Jason, Carl Fullerton — que anos mais tarde se tornaria um especialista em truques de maquiagem e efeitos aclamado em Hollywood graças ao seu envolvimento em projetos renomados, como "O Silêncio dos Inocentes" (1991) e "O Poderoso Chefão III" (1990) — se vira bem como pode e nos brinda com assassinatos pra lá de inesquecíveis, como o cadeirante Mark (Tom McBride), golpeado com um facão em seu rosto, rolando escadaria abaixo em uma chuva torrencial e claro, a polêmica morte do casal Sandra (Marta Kober) e Jeff (Bill Randolph) empalados por uma lança.
Essa cena do empalamento, aliás, é até hoje considerada uma cópia ou homenagem, depende do ponto de vista, de um dos assassinatos de "Mansão da Morte" (1979), do cineasta italiano Mario Bava. É importante frisarmos que o longa original de 1980 também já havia prestado uma homenagem ao clássico de Bava e ambas as produções possuem locações muito similares. Independente disso, não deixa de ser um dos momentos mais emblemáticos de toda a saga. Uma pena que esse e vários outros momentos do filme, assim como em diversos outros exemplares da série, sofreram uma forte censura por parte do arqui-inimigo dos filmes de extrema violência, a MPAA (Motion Picture Association), órgão que regulamenta a censura dos filmes e que sempre foi uma legítima pedra no sapato da maioria dos filmes de terror, em especial a franquia "Sexta-Feira 13", notória por suas cenas de violência exageradas.
Todavia, esse momento tão visceral pode ser conferido na íntegra em fotos promocionais da época de lançamento, incluindo em capas de antigos VHS. Diga-se de passagem, nunca vou me esquecer do impacto que a capa da fita de vídeo desse longa teve sobre mim desde a primeira vez que o aluguei, há mais de 20 anos. Simplesmente antológico! Bem recentemente, esses segmentos mais violentos e gráficos do filme foram revelados ao público, ainda que suas imagens tenham sido extraídas de fitas VHS antigas. Seja como for, trata-se de um compilado que merece ser conferido por todo apreciador do longa e da franquia que se preze. À quem se interessar, no momento dessa publicação é possível encontrar essas cenas deletadas, extraídas da edição em blu-ray, do box set da Scream Factory! no YouTube. Definitivamente, esses trechos teriam agregado muito ao filme.


Todavia, nem tudo são flores e preciso pontuar algumas coisas por aqui. Ainda que essa primeira continuação encabece o meu Top 5 da franquia, há alguns elementos, cenas e passagens que me incomodam um pouco. Por exemplo, como Jason localizou o endereço de Alice no início do filme? Teria o nosso querido vilão encontrado o telefone — sim, ela recebe uma ligação muda poucos instantes de ser eliminada — e o endereço da jovem sobrevivente em alguma lista telefônica? O flashblack inicial também é um dos mais longos da saga, ocupando aproximadamente longos 5 minutos de duração. Creio que poderiam ter sintetizado, não havia necessidade de gastar tanto tempo com a repetição do clímax do longa-metragem de estreia, porém bola pra frente.
Por sinal, à partir daqui foram estabelecidos alguns elementos que se repetiriam em algumas das sequências, como por exemplo os flashbacks e recapitulações de eventos de episódios anteriores, os jumpscares extremamente similares entre si nos finais dos 3 primeiros filmes e até mesmo no quarto e sétimo longas, caso os finais alternativos tivessem sido lançados oficialmente, além é claro de elementos chave, como os temas compostos por Harry Manfredini, o icônico logo tridimensional "Friday the 13th" e os créditos de abertura em letras brancas sob um fundo preto e claro, a utilização da câmera subjetiva, que exibe exclusivamente o ponto de vista do serial killer e o recurso de não exibir o vilão de perfil até o clímax, características estabelecidas no primeiro filme e que se repetem praticamente até o quinto longa.
Do mesmo modo que o clássico essencial "Halloween II - O Pesadelo Continua!" (1981), "Sexta-Feira 13 Parte II" aposta, conforme descrevi anteriormente, em uma quantidade mais ampla de mortes e, tal como a fita concorrente daquele ano, também investe em mais truculência, criatividade e aspectos viscerais em cada uma delas, elementos que se tornariam praticamente mandatórios na maioria das sequências de terror e slasher, algo que inclusive é debatido com uma abordagem muito sagaz e divertida em "Pânico 2" (1997).
Além disso, há também as ambiguidades que todos discutem até hoje Internet afora, seja em fóruns, redes sociais e por aí vai, que é o final do filme, um dos desfechos mais polêmicos de toda a saga, ao lado do sétimo e oitavo filmes, diga-se de passagem. Com relação à isso, não quero entrar em maiores detalhes, porém recomendo fortemente para quem desconhece assistir aos extras disponíveis no DVD da edição especial brasileira. Se você tiver alguma edição gringa como eu, melhor ainda! Lá, os realizadores discutem não apenas o final indiscutivelmente confuso, como também mencionam a existência de uma versão alternativa.
E antes que eu me esqueça, algo com relação aos minutos finais da produção que flui com o mais admirável primor é a dinâmica de psicologia reversa entre a excepcional final girl Ginny Field (Anny Steel) e Jason (Steve Dash - 1944 — 2018) na cabana onde o serial killer vive e armazena alguns cadáveres de suas vítimas, além da cabeça de sua querida mãe. A heroína tentando enganar o vilão fingindo ser Pamela Voorhees é algo muito bem estabelecido muito antes de acontecer através de um diálogo no início do filme e funciona com perfeição cirúrgica, rendendo assim um dos momentos mais tensos e divertidos de toda franquia.
Como já é de se esperar de um projeto dessa magnitude, este cult classic também reserva para si algumas histórias pra lá de curiosas em seus bastidores. Não pretendo abordar cada uma delas, no entanto mencionarei um exemplo para quem desconhece. Quando o primeiro "Sexta-Feira 13" foi lançado, nenhum de seus realizadores almejava uma sequência. Direto e reto, a única razão pelo qual o filme foi concebido foi para levantar uma grana fácil seguindo os mesmos passos da obra-prima do slasher "Halloween - A Noite do Terror" (1978), fita pioneira que rendeu rios de dinheiro e abriu caminho, assim como "Sexta-Feira 13" para a febre slasher daquela época.
Por outro lado, a atriz Adrienne King, que interpreta Alice, acabou tendo uma participação bastante breve. Reza lenda que isso se deve ao fato de, durante as filmagens da produção do filme anterior, a atriz ter sido perseguida por um fã obcecado, razão pela qual se afastaria das telas, optando por trabalhar apenas com dublagens. Uma tremenda pena, muito embora existam relatos de que a atriz também tenha exigido um cachê elevado para participar dessa continuação e que o estúdio simplesmente optou por uma curta cena introdutória com sua personagem e nada mais.
Quem também é facilmente eliminado na primeira metade do longa é o sinistro eremita Ralph "Crazy Ralph" Neeley (1912 — 2004), outro personagem emblemático do primeiro "Sexta-Feira 13". Excêntrico de ponta a ponta, "Crazy Ralph" era um eremita que vagava pelas redondezas de Crystal Lake, alertando os jovens monitores a ficarem bem longe do acampamento. Ironicamente, acabou tendo o mesmo destino da maioria deles, no entanto muito antes.

Tal como mencionei em minha análise do primeiro filme, o especialista em maquiagem e efeitos especiais Tom Savini, inspirado completamente no memorável e assustador jumpscare de "Carrie - A Estranha" (1976), teve a ideia genial de trazer Jason Voorhees, ainda retratado como um garoto de 11 anos, porém em decomposição, numa das cenas mais inesquecíveis da saga, nos últimos minutos da produção. Entretanto, quase ninguém envolvido na fita antecessora, nem mesmo o genial Savini, pretendia trabalhar numa sequência e tampouco investir em Jason como seu antagonista. A maioria dos envolvidos considerava tal conceito tolo e inverossímil. Pois bem, quem diria que a galinha dos ovos de ouro da série seria justamente esse personagem, que mal havia aparecido em "Sexta-Feira 13".
Outro ponto que é muito intrigante de ser discutido e analisado é que, ao contrário de seus colegas de profissão, como Leatherface ("O Massacre da Serra Elétrica"), Michael Myers ("Halloween") ou Freddy Krueger ("A Hora do Pesadelo"), Jason sempre teve sua mitologia e caracterização desenvolvidos com maiores detalhes à cada novo filme e nessa segunda parte da saga isso fica muito evidente. Talvez as gerações mais novas desconheçam esse fato, contudo a encarnação do Jason dessa sequência não é o zumbi brucutu, invulnerável, completamente sobrenatural, que caminha lentamente, se teleporta e surge do nada e tudo mais, tampouco veste sua icônica máscara de hóquei do Detroit Red Wings, marca registrada que apenas seria estabelecida um ano mais tarde, com o lançamento do terceiro episódio.
Aqui, o vilão é interpretado pelo dublê Steve Dash, nas cenas em que usa um simples saco de batatas em seu rosto — visual inspirado no antagonista de "Assassino Invisível" (1976), com apenas um furo para um de seus olhos e por Warrington Gillette, que encarna a versão "desmascarada" de Jason, que exibe feições terrivelmente deformadas, rosto esse que muda constantemente ao longa de cada filme, cortesia dos diversos maquiadores envolvidos, que sempre buscam entregar sua própria visão do personagem, tornando-o ainda mais bizarro, cada vez com um aspecto menos humano e mais monstruoso.

Sim, é verdade. "Sexta-Feira 13 Parte II" não é uma obra perfeita e tampouco irrepreensível em toda sua conjuntura, assim como praticamente todos os longas da extensa franquia de Jason, mas nem por isso deixa de ser uma ótima opção de entretenimento, especialmente para uma bela noite de sexta-feira 13 como hoje. Se você é fã de terror e aprecia o subgênero slasher ou pelo menos curte produções descontraídas e de baixo orçamento, apenas desligue o seu cérebro e não exija tanto da fita. Certamente você vai se divertir com a receita infalível de bons sustos, violência moderada, assassinatos criativos e memoráveis, a trilha sinistra que consegue tanto cativar como dar nos nervos, além de todos aqueles clichês que tornam essas pérolas tão queridas.
Pra finalizar, é uma sequência que resiste muito bem ao teste do tempo, permanecendo não apenas relevante dentro do vasto filão slasher oitentista, como também continua sendo, ao menos para mim, como um dos melhores e mais importantes exemplares tanto da franquia como do subgênero, não apenas para esse que vos escreve, mas para a maioria dos fãs, pelo que percebo. Não me admira que até hoje inspire tantas pessoas ao redor do globo, desde cineastas até a bandas e artistas, que volta e meia prestam homenagens especificamente a esse e outros capítulos divertidíssimos da saga sangrenta de Jason.
Feliz 40 anos dessa entrada! Que todxs possamos revisitá-la sempre que possível.
Saldo fanfarrônico final:
Fanfavorável (3 estrelas de 5)
Redigido por David "Fanfarrão" Torres
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