sexta-feira, 13 de janeiro de 2023


Meus Filmes de Terror Preferidos de 2022
Salve Fanfarrões e Fanfarronas ávidos por bons sustos, histórias cavernosas e inquietantes, além de elementos sobrenaturais, soturnos, malevolentes ou pura e simplesmente muito gore e depravação visual e toda transgressão que se faça necessária! Tod@s na plena suavidade? Primeiramente, espero de verdade que suas passagens de ano tenham sido as mais proveitosas e melhores possíveis em cada sentido. 

2022 foi um ano extremamente produtivo no que tange ao entretenimento, a arte e a cultura em todas as suas esferas. Se tratando do vasto catálogo cinematográfico de horror/suspense e fantástico em geral, então, nem se fala. Tivemos uma legítima e invejável enxurrada de lançamentos tão divertidos quanto subversivos e tão intensos quanto desafiadores. Dito isso, elencar meus trabalhos preferidos sempre será uma tarefa laboriosa e complexa, no entanto não menos entusiasmante, especialmente se tratando de algo que amo incondicionalmente desde criança, como cinema de gênero.

Na medida do possível e impossível, elenquei meus 10 filmes de terror preferidos do ano passado e de quebra, ainda reservei um espaço para algumas menções honrosas e vejam só, até mesmo as minhas principais decepções. Adianto que as listas obedecem o meu grau de satisfação para cada uma — e insatisfação, para as famigeradas menções desonrosas, evidentemente. Sem mais delongas, preparem-se para embarcar numa leitura tão alucinante e colérica quanto impetuosa e  fanfarrônica.

Top 10:

10. "Hellraiser" 

Título original: "Hellraiser"

Gênero/Subgênero: Terror/Thriller

Dirigido por: David Bruckner

País de origem: Estados Unidos, Sérvia

Sobrevivendo da forma mais precária e vergonhosa que se possa imaginar, "Hellraiser" era uma franquia dada como decrépita e finada. Felizmente, após décadas de sequências inacreditavelmente sofríveis lançadas para o mercado home video, a saga criada pelo escritor, cineasta, produtor, roteirista, ator, artista plástico e dramaturgo inglês Clive Barker literalmente renasceu do inferno em que se encontrava. 

Lançado oficialmente apenas em solo internacional — ainda sem qualquer previsão de estreia em terras brasilis —, na plataforma Hulu e batizado apenas como "Hellraiser", dispensando subtítulos desnecessários, o mais recente longa-metragem da série cinematográfica nos apresenta uma trama bastante simples, porém eficiente o bastante para tornar a experiência da fita proveitosa e cativante na medida certa. Essa releitura apresenta Riley, uma jovem que batalha duramente contra um vício e que, em dado momento, se apossa de uma antiga caixa de quebra-cabeça. Ao decifrar a configuração do enigmático objeto, a garota e todos ao seu redor passam a ser eliminados sadicamente pelos cenobitas, seres extradimensionais que idolatram a dor e o sofrimento como uma fonte inesgotável e suprema de poder e prazer ilimitados.

Sob o comando de David Bruckner ("VHS"), "Hellraiser" prima por ser o melhor exemplar da franquia desde o segundo, entregando uma narrativa envolvente, um visual deslumbrante, uma gótica e magnífica trilha-sonora, que inclusive reprisa o tema dos longas originais, originalmente compostos por Christopher Young e claro, boas doses de suspense, horror e violência gráfica, sem mencionar o design repaginado dos cenobitas, que embora soem mais "atualizados", permanecem combinando a sensualidade fetichista e os padrões grotescos e viscerais de outrora. Destaque também para a hipnótica atuação de Jamie Clayton como a nova encarnação de Pinhead/Priest, personagem que havia sido imortalizado com maestria por Doug Bradley nos clássicos capítulos da saga.



9. "Terrifier 2" 

Título original: "Terrifier 2" 

Gênero/Subgênero: Terror/Slasher/Splatter

Dirigido por: Damien Leone

País de origem: Estados Unidos

O cineasta e especialista de efeitos práticos e de maquiagem Damien Leone foi responsável por um burburinho gigantesco ao redor do globo graças a franquia "Terrifier", principalmente em função de sua principal criação, o diabolicamente divertido e violentíssimo Art, o Palhaço. O vilão já havia aparecido em dois curtas-metragens, além do filme-antologia "All Hallows' Eve" (2013), no entanto foi em "Terrifier" (2015) onde o antagonista finalmente ganhou o seu devido destaque. 

Produzido com um orçamento bem limitado, a fita prima por entregar truques de maquiagem caprichadíssimos, além de introduzir pela primeira vez David Howard Thornton no papel do sádico psicopata assassino, que trucida tudo e todos que cruzam o seu caminho das formas mais bizarras e inventivas. Em suma, trata-se de uma grata surpresa que serviu para revitalizar o subgênero slasher — e em sua estrutura mais desmiolada, "over the top" e descompromissada possível — de uma forma implacável.

Uma sequência era inevitável e mais uma vez, concebido graças a uma campanha de financiamento coletivo, assim como o longa antecessor, "Terrifier 2" foi lançado em outubro de 2022 em solo internacional e, seu impacto foi tão expressivo entre as plateias ao redor do mundo que finalmente foi disponibilizado nos cinemas brasileiros no finalzinho do ano passado. Partindo do mesmo ponto sanguinolento em que a fita anterior se encerrou, Art ressuscita no necrotério e parte para uma nova onda de assassinatos no condado de Miles, porém dessa vez terá que enfrentar Sienna, uma jovem adolescente e seu irmão mais novo, Jonathan, que farão de tudo para deter o maníaco homicida. 

Ainda mais burlesca, exagerada, ousada e repulsiva, esta sequência se destaca novamente graças a brilhante interpretação de Thornton como Art, que rouba a cena graças a sua mímica e trejeitos tão hilariantes quanto amedrontadores, atributos esses que tornaram este palhaço assassino mais um membro do interminável panteão dos grandes vilões do cinema de terror contemporâneo desde o lançamento do "Terrifier" original e que agora, estão cravados até os ossos e entranhas. 

Damien Leone promove uma ode subversiva ao cinema slasher oitentista e também jamais poupa os espectadores das surras e mutilações, sempre exibindo tudo nos mínimos detalhes, vide a infame cena de escalpelamento e esquartejamento no quarto de uma jovem, trecho este que fará qualquer apreciador de gore e vísceras ir ao delírio. Fanfarronicamente, descrevo este segmento como "um belíssimo espetáculo de depravação gráfica e explícita que irá revirar estômagos mais sensíveis e familiarizados apenas com filmecos de terror de shopping center". Em tempo, olhos atentos para uma pontinha rápida, porém sempre muitíssimo bem-vinda de Felissa Rose, a eterna Angela Baker, do clássico slasher "Acampamento Sinistro" (1983).


8. "Soft and Quiet"

Título original: "Soft and Quiet"

Gênero/Subgênero: Terror Psicológico/Thriller

Dirigido por: Beth de Araújo

País de origem: Estados Unidos

Não é apenas de algo simples e direto que vive a mente de um apreciador de horror e cinema de gênero, certo? Pois bem, deixando um pouco de lado o horror mais tradicional e explícito, se existe algo que realmente representa o medo e a paura em suas formas mais puras e ameaçadoras na face da sociedade são os crimes hediondos e horrores além da compreensão cometidos covarde e deliberadamente pelos seres humanos, pautas levantadas em "Soft and Quiet", uma produção que certamente deixará sequelas nas mentes e almas de seus espectadores.

O thriller comandado pela brasileira Beth de Araújo se desenvolve em tempo real, seguindo uma única tarde na vida de uma professora do ensino fundamental, ao mesmo tempo em que ela organiza uma reunião de mulheres com ideias sórdidas e terrivelmente similares. Quando o grupo retorna para casa, a professora encontra uma mulher de seu passado, que desencadeia uma cadeia volátil de eventos perturbadores.

Diálogos, argumentos e segmentos que incomodam desde a sua ordinária premissa às suas ácidas e desprezíveis consequências integram o indigesto cardápio da película. Ao término da experiência, você sentirá como se uma torrencial soda cáustica percorresse por todo o seu organismo, consumindo e corroendo cada um de seus órgãos de dentro para fora, deixando absolutamente nada, nem mesmo reações que possam ser minimamente descritas.

"Soft and Quiet" é uma obra legitimamente crua, hostil e contraventora, uma manifestação artística e sensorial que te deixará refletindo e discutindo sobre o que assistiu durante algum tempo, tamanho é o impacto da surra emocional que se faz presente em uma hora e meia de duração. Todavia, se ao menos serve de consolo, essa provocativa experiência é crucial de ser debatida, especialmente nos dias atuais, onde o cenário global é cada vez mais refém da asquerosa ascensão da Extrema Direita, do preconceito, do totalitarismo e de toda manifestação de intolerância que se preze. 

Combinando atuações sinceras por parte do elenco, bem como um clima de tensão e tortura psicológica capaz de deixar os nervos de qualquer um à flor da pele, esta obra servirá indubitavelmente como um excepcional objeto de estudo e análise para todos e todas que se interessarem pela sua áspera premissa. De fato, a expressão "Há males que vem para o bem" jamais poderia ecoar tão assertiva.


7. "Jaula"

Título original: "Jaula"/"The Chalk Line"

Gênero/Subgênero: Terror Psicológico/Thriller/Suspense

Dirigido por: Pai Inácio

País de origem: Espanha

Muitas vezes, as melhores e mais impactantes obras são justamente aquelas que nos pegam de surpresa e entregam resultados muito além do imaginado, na maioria das vezes subvertendo até mesmo as nossas impressões iniciais e trilhando caminhos completamente divergentes e obscuros. Este certamente é o exemplo de "Jaula", uma pérola que certamente sabe como envolver a plateia com exímio.

Paula e seu marido retornam de um jantar e, subitamente, se deparam com uma garotinha vagando pela estrada. Após duas semanas, depois de ver que ninguém a está reivindicando de volta, os dois decidem deixá-la ficar em sua casa temporariamente, e assim dar uma reviravolta em sua vida amorosa no processo. Em contrapartida, nada disso será fácil como parece, visto que a menina está obcecada com a fantasia de que um monstro vai sair e castigá-la se ela sair de um quadrado de giz pintado no chão. Desenvolvendo um intenso vínculo criado entre ambas, Paula inicia uma jornada por um caminho sombrio para tentar descobrir o passado enigmático e assustador da garota.

Sabem aquele tipo de obra que, quanto menos você souber do que se trata, melhor será a sua experiência ao desfrutá-la? Taí um princípio que cai como uma luva por aqui. Os desdobramentos de "Jaula" tornam o produto final uma jornada completamente imersiva e insólita, um passeio permeado por uma camada generosa de suspense e drama que farão os mais sensíveis roerem às unhas no decorrer da fita. 


6. "Fresh"

Título original: "Fresh"

Gênero/Subgênero: Terror/Thriller/Suspense

Dirigido por: Mimi Cave

País de origem: Estados Unidos

Travestido de comédia romântica e daquelas bem "água com açúcar", "Fresh" é outro grande exemplo de produção que conserva em seu miolo um pressuposto tão chocante quanto repugnante. Aqui, somos apresentados a Noa, uma jovem que conhece o sedutor Steve em uma mercearia e — dada sua frustração com aplicativos de namoro — se arrisca e disponibiliza a ele seu número. Após o primeiro encontro, Noa fica apaixonada e aceita o convite de Steve para um fim de semana romântico. O que ela não desconfia é que seu novo amante esconde alguns apetites e intenções pra lá de incomuns.

Divertidamente sórdido, "Fresh" se destaca com extrema facilidade graças ao carisma e química da dupla principal, composta por Daisy Edgar-Jones e Sebastian Stan, que se demonstram completamente confortáveis em seus papeis, entregando momentos estupidamente convincentes, seja nas passagens mais brandas como nos atos mais desconfortáveis e hardcore oferecidos pelo roteiro, trechos que possivelmente irão revirar estômagos mais despreparados, diga-se de passagem. 

Seja como for, trata-se de uma obra realmente intrigante e imperdível, algo que fisga o público com sua trama básica e bem construída, fazendo com que fiquemos na ponta da poltrona aguardando pela sua chocante conclusão. Assim como boa parte dos longas aqui presentes, recomendo fortemente que, caso tenha real interesse em assistir ao filme, evite assistir ao trailer ou buscar maiores informações sobre o enredo ou mesmo sua publicidade. Os spoilers provavelmente irão arruinar a sua experiência, entregando detalhes que tornam o recheio desta refeição tão apetitosa e exótica. 


5. "Não! Não Olhe!

Título original: "Nope"

Gênero/Subgênero: Terror/Thriller/Ficção Científica

Dirigido por: Jordan Peele

País de origem: Estados Unidos

Simplesmente não há como discorrer sobre o cinema de terror contemporâneo sem destacarmos nomes como Ari Aster, Robert Eggers, Ti West e claro, Jordan Peele, cineasta estadunidense, mais conhecido por ter integrado o elenco do MADtv, bem como por ter escrito e dirigido "Corra!", trabalho extremamente bem-recebido pelo público e pela crítica especializada. "Corra" rendeu a Peele o Oscar de melhor roteiro original em 2018, conquista esta que o tornou o primeiro negro a receber o prêmio nesta categoria.

"Não! Não Olhe!" é o terceiro longa-metragem de Peele assumindo a direção e, tal como em seus trabalhos anteriores, todos os elementos e simbolismos que permeiam suas obras se fazem presentes. Após a queda de objetos aleatórios resultarem na morte de seu pai, os irmãos proprietários de ranchos OJ e Emerald Haywood tentam capturar evidências em vídeo de um objeto voador não identificado com a ajuda do vendedor de tecnologia Angel Torres e do documentarista Antlers Holst.

Prestando homenagens a diversos clássicos do cinema, bem como a cineastas que admira de modo geral em momentos pontuais e de forma sempre sábia e sagaz, a direção de Peele é segura, mesmerizadora e de primeiríssima, destacando cada nuance, cada sequência, além de cada atuação e plano que deseja captar. A atuação do elenco, em especial de Daniel Kaluuya, Keke Palmer e Steven Yeun, é um espetáculo à parte, elementos estes que apenas contribuem para que a produção alce voos cada vez maiores à medida que o enredo avança.

Por mais que o seu desfecho soe um tanto abrupto e talvez demonstre a falta de algo mais intrépido e inspirado", "Não! Não Olhe!" entrega exatamente o que se espera das mãos de um nome tão arrojado e ostensivo como Peele. Se você busca por uma produção na qual a premissa, os personagens, os aspectos visuais, sonoros e tudo o que cerca o projeto estão em sua mais plena forma e vigor, este longa é completamente indispensável para você!


4. "X: A Marca da Morte"

Título original: "X"

Gênero/Subgênero: Terror/Slasher

Dirigido por: Ti West

País de origem: Estados Unidos

Escrito e dirigido pelo estadunidense Ti West, "X: A Marca da Morte" é outro exemplar de produção recente que chegou com os dois pés no peito, arrebentando a boca do balão e tornou-se um cult classic em pouquíssimo tempo, feito este deveras merecedor. No ano de 1979, onde um grupo de jovens cineastas deseja produzir um filme adulto na zona rural do Texas. Ao chegarem no local, seus solitários e idosos anfitriões os pegam em flagrante, proporcionando uma série de situações pra lá de macabras que farão com que cada um deles lute pela sua sobrevivência.

Prestando homenagens diretas a clássicos como "O Massacre da Serra Elétrica" (1974) e "Sexta-Feira 13" (1980), West optou por usar lentes que emulam o visual de obras antigas, em 16mm, algo que torna o aspecto deste slasher mais rústico e singular. Além disso, toda a ambientação e construção de tensão e suspense contribui imensamente para o desenrolar da fita, que mescla doses generosas de nudez, sexo, violência gráfica, além de atuações convincentes — em especial de Mia Goth, que executa dois papeis e beira e perfeição —, graças ao seu elenco carismático, além de um atmosfera claustrofóbica e inquietante.

Contendo tantos ingredientes que tornam sua receita infalível, "X: A Marca da Morte" é um filme obrigatório não apenas para os entusiastas de um bom slasher, como de horror e cinema de qualidade de forma geral. Caso ainda não tenha conferido, é melhor agilizar, pois a sequência também foi recém-lançada no ano anterior e uma tão aguardada terceira parte já se encontra em produção. Em tempo, falarei sobre a segunda parte mais adiante, fiquem despreocupados...


3. "The Sadness"

Título original: "Ku bei"

Gênero/Subgênero: Terror/Splatter

Dirigido por: Rob Jabbaz

País de origem: Taiwan

Se "Terrifier 2" supostamente foi responsável por inúmeras plateias passarem mal nos cinemas ao redor do mundo, imagine um certo longa metragem taiwanês que, de tão extremo, foi recusado para distribuição até mesmo por uma certa plataforma de streaming vermelhinha que atende pelo nome de Netflix. Sim, Fanfarrões e Fanfarronas! Estou falando de "The Sadness", produção cuja palavra de ordem é pura e simplesmente a ultraviolência, em seu estágio mais grosseiro e indomável, onde simplesmente não existem barreiras.

Após um ano combatendo uma pandemia com sintomas relativamente benignos, uma nação frustrada finalmente baixa a guarda. Entretanto, é precisamente à partir daí que o vírus sofre uma mutação espontânea, dando origem a uma praga que altera drasticamente os seus infectados. As ruas explodem em violência e depravação, uma vez que todos aqueles que contraem o vírus se transformam em incontroláveis e sádicos criminosos e assassinos, que torturam, estupram, mutilam, praticam canibalismo e matam única e exclusivamente por prazer e diversão. Dentro deste cenário apocalíptico, um jovem casal é levado ao limite da sanidade enquanto tenta se reunir em meio ao caos. A era da civilidade e da ordem não existe mais, restando apenas "A Tristeza".

Com uma trama que se assemelha e muito a da história em quadrinhos "Crossed" (Garth Ennis), além da premissa do clássico "O Exército do Extermínio" (1973), do saudoso George A. Romero (1940—2017), "The Sadness" é outro exemplar de produção que jamais poupa os espectadores de toda a carnificina animalesca entregue durante toda sua duração. Há um trecho que envolve um "estupro ocular", algo que poderia ser descrito como pornograficamente atroz. 

Sem a menor dúvida, um dos longas mais libertinos e ferozes no que diz respeito a gore e sanguinolência desmedida, ofertando o que há de melhor em efeitos práticos e truculência visual e artística, tudo isso aliado a uma narrativa urgente e uma direção necessariamente frenética. Em tempo, é bem interessante observar que ainda existe espaço para um subtexto — embora breve — para o negacionismo diante de uma pandemia mortal, algo que jamais poderia reverberar de uma maneira tão simples e eficiente como nos tempos atuais. Ah e querem mais? Se tal como eu, você também é um(a) entusiasta não apenas de truculência cinematográfica como sonora, não deixe de conferir a faixa "Crying City", do grupo taiwanês de grindcore ASHEN, quando os créditos rolarem. 


2. "Speak No Evil"

Título original: "Speak No Evil"

Gênero/Subgênero: Terror Psicológico/Thriller/Suspense

Dirigido por: Christian Tafdrup

País de origem: Dinamarca

Retornando ao território das obras genuinamente transgressoras e que retratam os crimes e pecados mais hediondos que se pode conceber, ou seja, frutos intimidatórios e inescrupulosamente cometidos única e exclusivamente pela maldade humana, "Speak No Evil", fatal e definitivamente falando, não é uma opção indicada para todos os públicos.

Capaz de chocar com sua trama básica, porém muito sólida, a fita nos introduz a uma família dinamarquesa na qual desenvolve uma amizade com uma família de raízes holandesas que conheceram durante as suas férias. Após visitarem o casal holandês e seu filho pequeno, aquilo que supostamente deveria ser um fim de semana idílico lentamente se desfaz, enquanto os dinamarqueses tentam se manter educados diante de situações cada vez mais desagradáveis e perigosas.

Ostentando um ritmo vagaroso e progressivo, que prepara o terreno e tortura o inconsciente do espectador, fazendo dele uma vítima tão amedrontada e indefesa quanto os protagonistas da fita, "Speak No Evil" é, sem a menor dúvida, um dos longas mais chocantes que tive o mórbido prazer em assistir em 2022 — quiçá até mesmo o mais perverso em toda sua vil essência. A construção da narrativa, assim como do suspense e tensão psicológicas e a concepção de seus personagens e traços de personalidade são simplesmente primorosos. O mesmo também deve ser dito para as atuações, cuja verossimilhança consolida a assustadora perspectiva intimista da película. 

De contraindicação, apenas diria sinceramente que, caso você pretenda assistir ao filme, se atente a possíveis gatilhos, pois assim como em "Soft and Quiet", a proposta inquestionavelmente irá perturbá-lo. Não obstante, a escala de horror e revolta apenas se agravará à medida que o ato final se aproxima. O desfecho, por sua vez, será o prego no caixão de sua existência. Veja por sua conta e risco. 


1. "Pearl"

Título original: "Pearl"

Gênero/Subgênero: Terror/Thriller/Slasher

Dirigido por: Ti West

País de origem: Estados Unidos

Finalmente chegamos ao primeiríssimo lugar do pódio! Conforme havia prometido, lá vamos "nóizes" falarmos a respeito de "Pearl", o segundo capítulo da saga iniciada em "X: A Marca da Morte". Desta vez, nos deparamos com uma vigorosa prequel para o longa antecessor e nela, finalmente testemunhamos as origens da letal antagonista de "X". Confinada na fazenda isolada de sua família, Pearl necessita cuidar de seu pai doente sob a vigilância amarga e autoritária de sua devota mãe. Almejando uma vida glamorosa como a que ela vê nos filmes, a jovem encontra suas ambições, tentações e repressões colidindo ferozmente, o que levará a se tornar a nefasta personagem que conhecemos anteriormente.

Conceber uma sequência digna para um filme aclamado é sempre uma tarefa ingrata e que demanda um esforço considerável. Agora, produzir algo dessa magnitude em um intervalo de tempo tão curto, mais precisamente inferior a um ano entre uma produção e outra e, de quebra ter a proeza de conseguir fazer com que o projeto flua com perfeição e sem desvios é um feito tão improvável que, quando realmente funciona, merece todos os elogios e reconhecimentos possíveis. "Pearl", com toda certeza, consegue a façanha extraordinária de rumar muito além.

Muito se questiona sobre a qualidade duvidosa da maioria das prequels que são realizadas de tempos em tempos e "Pearl" rema contra a turbulenta e duvidosa maré pela qual a maioria desses projetos veleja. Sejamos bem honestos, dá para contarmos nos dedos os poucos exemplares de histórias de origem que realmente funcionam e esta aqui não apenas opera muito bem, como consegue até mesmo superar o longa original, em minha humilde e fanfarrônica opinião. 

Se em "X: A Marca da Morte", as lentes e o aspecto visual entregues por Ti West apostavam no aspecto granulado e cru dos slashers setentistas/oitentistas, "Pearl" mira no cinema dos anos 40 e 50, com sua paleta de cores muito viva e saturada em tomadas externas ou com sua baixa e soturna iluminação dentro do lar de Pearl — e até mesmo na tipografia e no layout escolhido para os créditos iniciais e finais, recursos que, mais uma vez, emulam o cinema daquele período —, elementos que não apenas culminam na ascensão da insanidade da antagonista — interpretada novamente por Mia Goth, que além de entregar uma performance magistral e hipnótica, também assina o roteiro ao lado de West —, como também tornam toda a experiência de assistir a obra algo muito mais audacioso e completo. 

Definitivamente o melhor filme de terror e suspense que tive o privilégio de conferir em 2022. A competente e visionária direção de West, somada a deslumbrante trilha-sonora, assim como todos os aspectos técnicos envolvidos e principalmente a interpretação surrealista e completamente fora da curva de Goth — algo que beira uma fusão estarrecedora de possessão demoníaca com psicose e/ou esquizofrenia — tornam "Pearl" um espetáculo cinematográfico imperdível, seja você um(a) fã de filmes de terror ou não. 


Menções Honrosas:

6. "Pânico"

Título original: "Scream"

Gênero/Subgênero: Terror/Thriller/Slasher/Suspense

Dirigido por: Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett

País de origem: Estados Unidos

Após o inesquecível cineasta Wes Craven (1939—2015) nos deixar, o futuro da franquia "Pânico", ao menos na tela grande, parecia ter sido comprometido para sempre, até que a aclamada dupla de cineastas Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett ("Casamento Sangrento") foi recrutada para comandar a quinta entrada da tão querida saga de filmes slasher iniciada em 1996. O resultado final é uma entrada que, não é apenas já se estabeleceu como uma das melhores de toda a saga, mas literalmente acrescenta sangue novo, pavimentando o que pode vir à se tornar um novo rumo para a série.

Preservando doses de humor, sarcasmo e sagacidade que sempre fizeram parte do que a série significa, "Pânico" — e não "Pânico 5", como muitos imaginaram que o filme seria nomeado — opera como sequência e retcon da franquia, uma premissa bastante interessante e que justifica a ausência do algarismo "5" em seu título. Após uma tentativa de assassinato muito semelhante a ocorrida há 25 anos, no longa-metragem original, um inédito grupo de adolescentes se torna alvo de um novo Ghostface. Por se tratar de uma nova década, mais uma vez as regras do jogo doentio do serial killer são renovadas. Qual ou quais são as novas identidades do(a) mascarado(a)? Quem e quantos mais devem morrem nessa nova onda de assassinatos? 

Agregando momentos mais agressivos do que em seus capítulos anteriores e investindo mais no espectro de temor e incerteza do que no humor mais latente em outras sequências, "Pânico" se arrisca e acerta em cheio na maioria de suas decisões, introduzindo uma nova geração de personagens, traçando paralelos com o cinema de gênero na atualidade assim como outrora e primando por uma direção coesa e dinâmica, algo que certamente deixaria o saudoso Wes Craven completamente orgulhoso. Claro que existem algumas situações e decisões do roteiro que vão exigir uma dose de suspensão de descrença, entretanto o saldo final é extremamente positivo. 

Uma vindoura sequência está à caminho, vamos torcer para que a franquia continue sendo sinônimo de qualidade e referência e não se torne refém dos mesmos clichês e continuações e empreitadas caça-níqueis toscas e duvidosas que se predispôs a criticar tão inteligentemente por décadas.


5. "Prey: A Caçada"

Título original: "Prey"

Gênero/Subgênero: Ação/Aventura/Drama/Terror/Ficção Científica/Suspense

Dirigido por: Dan Trachtenberg

País de origem: Estados Unidos

Após o lançamento do tenebroso "O Predador" (2018), a franquia da raça de alienígenas caçadores Yautja parecia ter sido arruinada de vez, ao menos por uns bons anos, porém felizmente tivemos um retorno triunfal no formato, vejam só, de uma prequel produzida para o streaming Hulu. Situado na Nação Comanche há 300 anos, esta é a história de Naru, uma guerreira feroz e altamente qualificada, criada na sombra de caçadores lendários que vagam pelas Grandes Planícies. Quando o perigo ameaça seu acampamento, ela sai para proteger seu povo. A presa que ela persegue: um predador alienígena altamente evoluído com um arsenal tecnicamente avançado. 

"De volta ao básico" é a premissa imposta pelo roteiro e honestamente? Foi a melhor alternativa que tomaram após o desastre provocado pela bomba atômica lançada anteriormente. "Prey: A Caçada" aposta em uma protagonista feminina imponente, habilidosa, esperta e na qual o público é verdadeiramente capaz de se identificar, elementos esses que fazem toda diferença em uma produção dessa vertente. 

Ambientar o enredo em um cenário e época mais distantes também foi outro ponto de virada enriquecedor. Tal dinâmica possibilitou que as situações presentes no roteiro se tornassem mais inquietantes, perigosas e imprevisíveis. Próximo ao encerramento, ainda existe um notável easter egg para "O Predador 2: A Caçada Continua" (1990), o que demonstra a preocupação com a continuidade da franquia, algo extremamente raro em franquias tão longevas e já desgastadas como "Predador". 

Como se tudo isso não fosse o bastante, "Prey" também denota um fato muito importante, sendo o primeiro filme dublado em Comanche e a primeira vez que um longa-metragem estreou em um idioma nativo ao lado de sua contraparte em inglês, um feito e tanto para um episódio de uma franquia já estabelecida e tão ferida pelos traumas do passado. Que este novo capítulo marque uma renovação para a saga, contudo que apenas ganhe outras sequências e derivados apenas se realmente existirem conteúdo e boas ideias. Caso contrário, é melhor parar por aí, afinal, "não se mexe em time que está ganhando".


4. "Men: Faces do Medo"

Título original: "Men"

Gênero/Subgênero: Drama/Fantasia/Terror/Suspense

Dirigido por: Alex Garland 

País de origem: Estados Unidos

Taí um dos exemplares mais excêntricos e divisivos do gênero lançados em 2022. Buscando refúgio e consolo após uma perda terrível, a traumatizado Harper foge de Londres e se esconde em uma mansão isolada no remoto campo inglês. Assombrada por memórias dolorosas e um insuportável sentimento de culpa, Harper anseia por redenção. No entanto, uma breve exploração das exuberantes paisagens locais revela acontecimentos estranhos à medida que encontros desconfortáveis ​​frustram os seus ambiciosos planos de se recuperar, desferindo uma dor irremediável na qual se transforma em uma sinistra corrente de mal-estar. Rapidamente, o puro significado de pavor toma conta. 

Embora sua premissa seja muito simples e introspectiva, embalada pelo drama e fortes visões e lembranças de sua protagonista, a condução dessa obra é simplesmente um delírio artístico e sensitivo de proporções descomunais. Assistir ao longa beira algo como ingerir um alucinógeno de efeito instantâneo e duradouro, na qual desperta distintas impressões que, mesmo após os créditos rolarem, deixará consideráveis reações até na mais ímpio das audiências.

Uma narrativa nada linear, acompanhada de uma trama surrealista, repleta de simbolismos e múltiplas interpretações, além de um visual estonteante e estiloso tornam "Men: Faces do Medo" uma experiência tão inquietante quando sui generis. Se você faz parte daquele time que possui uma certa aversão com trabalhos mais experimentais e pouco palatáveis, ainda assim vale a pena conferir ao filme, mesmo que seja para tecer suas próprias interpretações pessoais. Por outro lado, se você pertence ao mesmo time que eu, onde se aventurar por algo fora da caixa soa agradável, ao menos quando praticado de forma razoavelmente sóbria e imaginativa, talvez este lisérgico longa soe se torne uma grata surpresa para ti também. 


3. "Noites Brutais"

Título original: "Barbarian"

Gênero/Subgênero: Terror/Suspense/Suspense

Dirigido por: Zach Cregger

País de origem: Estados Unidos

Sempre vamos nos deparar com aquelas produções cuja fama as precedem. Surpreendendo e apavorando incontáveis plateias em âmbito mundial, "Noites Brutais" é uma das grandes sensações do cinema de gênero lançadas no ano anterior. Em busca de uma entrevista de emprego na cidade, uma jovem chega ao aluguel do Airbnb tarde da noite apenas para descobrir que o local foi reservado por engano e um homem estranho já está hospedado lá. Contra seu melhor julgamento, ela decide passar a noite de qualquer maneira, mas logo descobre que há muito mais a temer na casa do que o outro hóspede.

A construção do terror e do suspense são os calcares de Aquiles deste longa, cuja escala de tensão e pânico é ampliada graças a onisciente edificação desses elementos, em especial em sua primeira metade. Confesso que os desdobramentos da segunda parte da fita poderão desapontar ou diminuir ao menos um pouco as expectativas de algumas pessoais, porém o que temos no fim das contas é um filme bem construído, eficiente e correto em sua natureza. 

Do mesmo modo que alguns exemplares presentes na lista, embora não entregue algo inédito e/ou inovador, sua execução é admirável, o que torna todo o restante ainda mais aprazível e eficiente. "Noites Brutais" é um bom "terror pipoca" e que deve ser conferido sem grandiosas pretensões, mas não se enganem, a diversão horrífica é garantida.


2. "Hatching" 

Título original: "Hatching"/"Pahanhautoja"

Gênero/Subgênero: Drama/Fantasia/Terror

Dirigido por: Hanna Bergholm

País de origem: Finlândia/Suécia

Conseguir combinar drama e horror com genuinidade jamais foi uma tarefa que muitos conseguiram desempenhar com a devida propriedade. Combinar gêneros, elementos e texturas tão antagônicas entre si exigem roteiros e premissas à altura, além de uma direção que demonstre pleno domínio daquilo que está fazendo e oferendo ao público. Felizmente, "Hatching" caminha numa direção muito positiva. 

Desesperada para agradar sua mãe vlogger dominadora e obcecada por imagens, Tinja, uma frágil ginasta de 12 anos, se vê entre o martelo e a bigorna. Mas nada é bom o suficiente, e enquanto a garota luta para aprimorar suas habilidades, sucumbindo lentamente ao fardo insuportável de expectativas e perfeição, uma descoberta inesperada na floresta se torna o prenúncio silencioso da violência. Agora, a coisa no quarto de Tinja ameaça a ilusão bem cuidada da família desavisada e a falsa realidade perfeita da mãe. E pensar que a garotinha de olhos arregalados faria qualquer coisa para impressionar sua mãe passivo-agressiva. O que a menina está chocando sob o nariz de todos?

"Hatching" poderá deixar um sabor agridoce em sua boca, dadas certas circunstâncias e a condução de sua narrativa, mas verdade seja dita, nada disso interfere no fato de que se trata de uma fábula de terror exótica e que traz uma metáfora sensível para a maturidade e revolta internas de sua protagonista. Há trechos mais nauseantes em certas passagens — alguns chegam a flertar com o body horror — e todos esses artifícios apenas potencializam o grau de satisfação para com o produto final. 



1. "O Menu"

Título original: "The Menu"

Gênero/Subgênero: Terror/Suspense/Comédia

Dirigido por: Mark Mylod

País de origem: Estados Unidos

Eis aqui outra das surpresas que mais me chamou a atenção em 2022. Combinando um humor ácido, suspense e terror de modo autêntico e formidável, "O Menu" nos apresenta a um grupo de gastrônomos ricaços e cujo paladar exigente os conduz ao Hawthorn, um templo culinário exclusivo, comandado pelo conceituado chef gourmet Julian Slowik. Preparado para uma requintada refeição de vários pratos e a experiência de uma vida, o obsessivo epicurista Tyler e sua nada impressionada Margot entram no restaurante minimalista privado. Entretanto, ninguém sabe que o misterioso gênio da cozinha possui magnânimos e estranhíssimos planos para esta noite. 

À medida que a trama avança, somos surpreendidos por uma cadeia de eventos que ampliam consideravelmente o patamar de desespero e pavor. Cada prato anunciado, cada ato que surge se torna um sinal de que algo muito pior e inimaginável está próximo. Também é de suma importância mencionar que, conforme os novos pratos são preparados no decorrer do longa, cartelas com suas definições e ingredientes são disponibilizadas nos cantos da tela, transformando a experiência de ver ao filme ainda mais confidencial e personalizada. Francamente, é como se a plateia se tornasse parte deste grande evento que está ocorrendo bem diante de nossos olhos.

Como se não bastasse um conceito tão atrativo, as atuações do elenco também se destacam facilmente, em especial por parte de Anya Taylor-Joy, Ralph Fiennes e Nicholas Hoult, que dominam a cena com uma facilidade incomparável em suas respectivas performances. Some tudo isso a uma direção e aspecto visual e técnico igualmente atraentes e competentes, bem como um roteiro incitante e cujo clímax é intensificado pelo conjunto de todos os demais ingredientes. Isto é "O Menu", uma experiência cinematográfica tão saborosa quanto letal. Aprecie sem(?) moderação!


Menções Desonrosas/Decepções do Ano:

3. "O Massacre da Serra Elétrica: O Retorno de Leatherface"

Título original: "Texas Chainsaw Massacre"

Gênero/Subgênero: Terror/Slasher

Dirigido por: David Blue Garcia

País de origem: Estados Unidos/Bulgária

O nono "O Massacre da Serra Elétrica" mal foi anunciado e os sinais de que o projeto poderia novamente fracassar miseravelmente eram muito claros. Em sua primeira semana de rodagem, a dupla de diretores inicialmente contratados, Andy e Ryan Tohill, foi demitida por "divergências criativas". Para completar o projeto, o cinematógrafo texano David Blue Garcia ("Tejano") assumiu a linha de frente às pressas e, após testes de exibições, o feedback foi extremamente negativo, fazendo com que a Legendary Pictures vendesse os direitos da produção para a plataforma de streaming Netflix. Aparentemente, as críticas foram basicamente em decorrência aos furos de roteiro, decisões questionáveis tomadas no decorrer da fita, além do direcionamento dado ao antagonista.

Tentando surfar na mesma onda que "Halloween" (2018) triunfou, "O Massacre da Serra Elétrica: O Retorno de Leatherface" é mais uma sequência direta para o longa-metragem original de 1974, comandado por Tobe Hooper (1943—2017). Pois é, os caras não querem abandonar esse osso jamais! Tal como o filme de David Gordon Green, este "Massacre" tenta resgatar a final girl de seu longa original, Sally Hardesty, agora interpreta pela atriz Olwen Fouéré e o resultado de tudo isso? Não há xingamentos e ofensas mil que resumam toda essa bagaceira desastrosa. 

A "trama" se passa 50 anos após os eventos do primeiro filme e nos apresenta um grupo de jovens — E lá vamos nós outra vez... — influencers e idealistas, que se dirigem a cidade fantasma de Harlow, no interior do Texas (EUA), no intuito de "revitalizar" o território. Sem nenhuma cerimônia, acabam se deparando com Leatherface (Mark Burnham), o desaparecido maníaco responsável pelo massacre ocorrido em 1973 e, como já era de esperar, não demora para que o grandalhão mascarado "retome às atividades".

Literalmente, se deixarmos de lado alguns poucos momentos de brilhantismo e estilo da produção, bem como sua maquiagem e efeitos práticos exagerados e aspectos técnicos moderadamente interessantes, o que resta é mais uma sequência caça-níquel que cospe, defeca e regurgita simultaneamente na face do longa original setentista, ao mesmo tempo que ignora a existência dos membros da família Sawyer, o conceito de canibalismo e até mesmo transforma Leatherface em um Jason Voorhees/Michael Myers 2.0. A que ponto chegamos, mr. Hooper?


2. "Olhos Famintos: Renascimento"

Título original: "Jeepers Creepers: Reborn"

Gênero/Subgênero: Terror/Slasher/Thriller

Dirigido por: Timo Vuorensola

País de origem: Estados Unidos

Com a premissa de se desvincular de uma vez por todas da imagem do cineasta condenado por pedofilia Victor Salva, além de ignorar a pavorosa terceira parte e "rebootar" a franquia com respeito, "Olhos Famintos: Renascimento" mal foi lançado e se tornou alvo de todo tipo de chacota e olha, as "definições de sequência caça-níquel foram atualizadas" com sucesso com essa péssima entrada que mais parece ter sido produzida por alguém que odeia a saga e desejava enterrá-la de uma vez por todas. 

O filme se desenrola enquanto o festival Horror Hound realiza seu primeiro evento na Louisiana, onde atrai centenas de geeks, malucos e fãs de terror obstinados de longe. Entre eles está o fanboy Chase e sua namorada Laine, que é forçada a acompanhá-lo. Conforme o evento se aproxima, Laine começa a ter premonições inexplicáveis ​​e visões perturbadoras associadas ao passado da cidade e, em particular, à lenda/mito urbano local The Creeper. À medida que o festival chega e o entretenimento encharcado de sangue aumenta para um frenesi, Laine acredita que algo sobrenatural foi convocado e que ela está no centro disso.

"Pior do que tá, não fica!", eles disseram. Pois bem, conseguiram produzir um "troço" tão tenebroso que até mesmo os cenários foram desenvolvidos com CGI (computação gráfica) da qualidade mais vagabunda que encontraram. As "atuações", por sua vez, são dignas de risos intermináveis, de tão pútridas e por fim, nem mesmo o visual do Creeper escapou. Se você imaginava que a tenebrosa aparência do antagonista na terceira entrada era o pior que poderia encontrar, devo informar que você está redondamente enganado(a), pois o que temos aqui é algo que parece ter saído de alguma loja de camelô ou de algum concurso de cospobre em alguma convenção fajuta de terror e afins. Sinceramente, que essa franquia continua adormecida para sempre, pois se esse é o tal "renascimento" que desejam nos empurrar goela abaixo, tá mais pra "Rest in Pieces" (Descanse em Pedaços) — ou ainda "Rest in Feces" (Descanse em Fezes).


1. "Halloween Ends"

Título original: "Halloween Ends"

Gênero/Subgênero: Terror/Slasher/Thriller

Dirigido por: David Gordon Green

País de origem: Estados Unidos

Existe uma comédia romântica intitulada "Como Perder um Homem em 10 Dias" (2003), porém o cineasta David Gordon Green e sua tripulação de patifes — sim, isso aqui virou tão galhofa que vou até parafrasear o Capitão Jack Sparrow — devem ter pensado o seguinte ao idealizar as sequências para "Halloween" (2018): "Como Foder uma Trilogia em 4 Anos". Se você imaginava que "Halloween Kills: O Terror Continua" (2021) já tinha sido um declínio de qualidade considerável, imagine "Halloween Ends", que levou a nova trilogia — e, por consequência a franquia — mais uma vez para o fundo do poço? 

Quatro anos após os eventos do filme anterior, Laurie Strode está morando com sua neta Allyson, ao mesmo tempo em que está finalizando a escrita de seu memorial. Michael Myers, nosso tão querido antagonista mascarado, está desaparecido e tudo parece ter voltado ao normal, até a chegada de um jovem, Corey Cunningham, um rapaz acusado de assassinar um garotinho que estava tomando conta em uma noite de Halloween. O aparecimento deste garoto resulta numa nova onda de terror e assassinatos, obrigando Laurie a confrontar os males que sempre a atormentaram até então.

Bora lá: "roteiro" chinfrim, Michael Myers ausente durante metade da trama, mudanças de personalidade e cenário que não fazem o menor sentido e não dão liga aos episódios anteriores, incontáveis diálogos e momentos de plena vergonha-alheia, além do surgimento de um novo personagem na qual ninguém liga ou se importa, ao invés de simplesmente focarem no que já havia sido estabelecido nos dois primeiros episódios da trilogia e principalmente no confronto final entre Myers Vs. Laurie. Papo sério: durante boa parte do filme, me questionei mentalmente se estava assistindo ao filme correto, de tão randômico o rumo que as coisas tomaram por aqui...

Esse filme não apenas uma decepção qualquer, é uma afronta a tudo o que já havia sido estabelecido nessa nova trilogia, além de ser mais uma péssima entrada para a franquia "Halloween", que já coleciona uma vasta quantidade de filmes bem questionáveis. É muito triste saber que esta foi a última vez que veremos Jamie Lee Curtis no papel de Laurie Strode, personagem imortalizada por ela desde o longa original de 1978, comandando pelo mestre John Carpenter. Sinceramente? Deixem essa franquia morrer. Vamos fingir demência e idealizar que o excepcional "Halloween" (2018) foi o "canto do cisne" lá tudo terminou. 

E chegamos ao fim do texto, caros Fanfarrões e prezadas Fanfarronas! Espero que tenham apreciado a leitura e conteúdo em si. Se possível, compartilhem a matéria com seus amigos e amigas, familiares e entes queridos que, tal como você e eu, são entusiastas deste mundo tão hostil quanto maravilhoso que é o cinema de horror. Por fim, contudo igualmente imprescindível, que 2023 traga ventos e ares ainda mais prolíficos e calorosos a cada um de nós, além de novos lançamentos de terror de altíssima qualidade, tal como foi em 2022. Aguardamos ansiosamente desde já!

Redigido por David "Fanfarrão" Torres